Cruzando a fronteira para o Uruguay

A noite em Santa Vitória do Palmar passou rápido. Enquanto comíamos pela manhã, eu sentia a fadiga dos meus músculos como se tivesse apeado da bicicleta há poucos minutos. Ficamos muito tempo tomando café numa padaria, sem pressa alguma para retornar à estrada ou ao selim.

Eu já havia saído do Brasil algumas vezes e três delas foi para entrar no Uruguay. Mas essa era a primeira em que eu pensava no que realmente significava uma fronteira. Vínhamos observando na viagem as lentas mudanças que ocorriam nos sotaques, costumes, vegetação, clima. Era a cultura interagindo reciprocamente com a natureza. De repente, haveria uma descontinuidade nessa relação. Talvez as palavras “barreira” e “aduana” sejam, em conjunto, as que melhor definem essa divisão político-absurda:  barreira para as pessoas, aduana para mercadorias. Enquanto na Chuí brasileira os carros, roupas, casas eram de um jeito, na uruguaya era tudo diferente. A comida do mercado, o cachorro quente, os mendigos da praça; ritmos, andares, tudo era diferente e separado, virtualmente separado, pois era uma avenida movimentada que dizia onde operava uma ou outra cidadania. É claro que não havia nenhum impedimento na circulação (apesar de termos lido avisos em lojas dizendo: proibida venda para uruguayos e coisas parecidas) e é exatamente isso o mais absurdo! Se não há barreira física, como um rio ou cordilheira, por que acontece a separação cultural?!

Mais uma vez, a competição e essa política medieval atravancam o desenvolvimento sadio da sociedade das pessoas.

Uma da poucas coisas que não mudou foi a plantação de pinheiros. Uma ideia esterilizante que está em toda parte, sendo uma das melhores formas em que dinheiro dá em árvore. A concepção dos ricos continua primitiva: é preciso mais!

Antes de chegarmos na fronteira, tomamos à esquerda, numa estrada mal cuidada onde estavam instalando uma placa: Praia do Hermenegildo. A ideia era conhecer a praia e voltar para a BR, mas à medida que descíamos para o litoral, naquela estrada, com o sol cada vez mais acima, mudamos os planos e fomos torcendo para que a maré estivesse baixa.

Saindo do centrinho do Hermenegildo

O lugar parecia uma vila de pescadores na tentativa de se transformar em balneário turístico. Muitas casas, que foram construídas perto do mar, estão destruídas e hoje resta um monte de escombros pela areia. Naquela época, não havia ninguém. Se passaram dez pessoas, foi muito.

Por sorte, havia uma larga faixa de areia e assim atravessamos os 15km de praia até o balneário de Chuí. Aproveitando o calor, a água gelada e a inexistência de pessoas, tomamos um banho bem pelados. Só teve um momento de apuro quando apareceu no horizonte uma caminhonete que depois identificamos como sendo da polícia federal. Estragou o clima, mas já era hora mesmo de seguirmos.

praia do Hermenegildo

Nosso contato em Chuí não dava respostas e pelas cinco da tarde começamos a buscar um lugar para dormir. Desde a estrada do inferno, estávamos com uma carta na manga para este momento. Há algumas semanas, um caminhão da marinha emparelhou com nossas bicicletas e nos disseram que havia um alojamento para soldados no farol de Chuí. Bastava ir lá e pedir. Não tinha como o caseiro recusar.

Fomos e conversamos. É sempre a mesma coisa: pedimos para ficar, recusam, insistimos, a pessoa vai falar com outra, volta, conversamos mais, e aí nos acolhem com muita hospitalidade. No farol, usamos a cozinha, tomamos banho, dormimos em camas.

Barra do Chuí: fronteira

Av. Uruguay / av. Brasil: fronteira

Na manhã seguinte, tentamos passar a fronteira por uma pequena aduana uruguaya perto da praia. O oficial disse que deveríamos cruzar pela “ruta”. Fomos para a cidade de Chuí propriamente, passamos na polícia brasileira (sem necessidade), almoçamos na praça do lado uruguayo, enviamos algumas correspondências pelo correio brasileiro e rumamos para o Uruguay.

Haviam nos dito que era difícil passar com comida, principalmente frutas. Isso era preocupante, pois não sabíamos quanto tempo ficaríamos sem conseguir reabastecer a despensa. Apoiamos a bicicleta no meio fio e fomos apresentar os documentos. O trâmite foi rapidíssimo, sem revista alguma e ainda o policial se despediu dizendo:

– Hoje o vento tá bom, de nordeste. Aproveitem!

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Um longo caminho até Santa Vitória

Escutamos milhares de histórias aterrorizantes sobre o trecho até o Chuí, assim como aconteceu com a estrada do inferno. Do entroncamento com a BR-392 até Santa Vitória do Palmar, seriam quase 200 quilômetros sem nenhuma cidade e somente um posto de gasolina. Antes de finalmente entrarmos na rodovia que segue em direção ao Chuí, o Gil me convenceu de que, como logo sairíamos do Brasil, deveríamos nos despedir do arroz e feijão de uma maneira digna: se empanturrando.

Paramos em um vilarejo chamado Quinta, que faz parte da cidade de Rio Grande, e entramos em um restaurante. O bufê era bem variado e quase não tinha mesa para sentar de tanta gente. Pela estrutura do lugar, parecia um restaurante de estrada meio chique, daquele que as famílias de classe média param quando estão indo para a praia. Não foi preciso fazer quase nenhum esforço: quando disse que estávamos viajando de bicicleta (e que não éramos 20 pessoas), o dono do restaurante já me convidou para pegar um prato e comer à vontade. O fato de não comermos carne acaba ajudando muito nessas situações – quando não conseguimos comida de graça, ao menos ganhamos um bom desconto – mas, dessa vez, nem precisei desse argumento.

Bem alimentados, saímos do restaurante para seguir viagem. Encontramos duas pessoas subindo em uma moto no estacionamento, cujos acessórios declaravam que estavam em viagem. Puxamos assunto e perguntamos aonde iam. Seguiam em direção a Santa Vitória do Palmar, tinham família lá, e chegariam no fim do dia. Nos desejamos boa sorte mutuamente, e voltamos para a estrada.

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Das histórias que nos contaram, posso concordar que a estrada é realmente longa. Também não tem muita gente que mora por ali, mas existem sim casinhas esparsas ao longo do caminho. Sem água e mantimentos, é difícil de ficar. Agora, quanto à rodovia ser tediosa, disso tenho que discordar. É lógico que é uma reta só, daquelas que o olhar escapa lá na frente, mas esse foi um dos trechos em que a estrada era mais bonita. É uma região com muitos pássaros de grande porte  (como o joão grande, o colhereiro, o cisne de pescoço negro, o gavião) e, como a vegetação é sempre um banhado ou pasto, se pode vê-los muito bem. No fim da tarde, milhares de passarinhos bem pequenos e azulados (os azulões) voavam de um arbusto ao outro, atravessando a estrada.

No final do primeiro dia, decidimos dobrar numa entrada para uma lagoa. Estávamos procurando a estação ecológica do Taim, onde provavelmente conseguiríamos pouso. Aquela entrada não dava lá, mas, em compensação, nos levava à lindíssima margem da Lagoa Mirim. Apesar de nossa vontade, não podíamos esperar muito tempo ali, só tínhamos uma opção de pernoite por enquanto e não dava pra brincar. Deixamos a lagoa quando o sol começava a se por, e seguimos pela estrada até o Taim.

Os azulões faziam sombra como as flechas persas contra Leônidas

Lagoa Mirim

A estação ecológica do Taim é a sede da guarda florestal que protege o Parque Nacional do Taim, um pouco mais a frente. Em Rio Grande, já tinham nos falado que existiam habitações próprias para estudantes, que passavam a noite ali durante alguma pesquisa, por isso sabíamos que, muito provavelmente, conseguiríamos um lugar para dormir. Porém, logo que paramos com as bicicletas no portão da frente, vimos uma dezena de soldados do exército brasileiro, e aí meu otimismo fugiu bem rapidinho. Foi engraçada essa reação. Nunca tinha presenciado ao vivo um grupo de soldados – com exceção de, quem sabe, o desfile de Sete de Setembro de Porto Alegre – mas, mesmo assim, eu guardava um medo irracional daquelas figuras. Aliás, irracional não, associações da imagem do exército com a repressão e a violência extrema me parecem ideias bem racionais, construídas a partir de notícias, documentários, livros e conversas.

Para a nossa sorte, porém, apesar daqueles soldados estarem ali, não eram eles que cuidavam da estação do Taim. Assim como nós, eles estavam apenas de pernoite naquele lugar. Os seguranças responsáveis, por sua vez, foram muito simpáticos: primeiro nos indicaram um lugar para armar a barraca, depois nos disseram para ficar no dormitório mesmo, já que o feminino estaria vago aquela noite. Mesmo com a gentileza e hospitalidade desses senhores, ainda não me sentia à vontade caminhando fora do dormitório, por mais que os soldados estivessem, agora, reunidos em volta de uma churrasqueira, cantando e contando piadas, parecendo jovens comuns, não fosse o uniforme camuflado.

No outro dia, levantamos bem cedo e às 7h já estávamos na estrada. Os primeiros 17km percorridos naquela manhã, cortavam o Parque do Taim, e foram de uma beleza quase indescritível. O banhado se estendia em uma faixa razoável, dos dois lados da pista. Era possível observar, além dos pássaros que já víamos a alguns quilômetros, ratos de banhado e capivaras. Eles eram em grande quantidade e, a toda hora, cruzavam a pista de um lado para o outro. Por conta disso, apesar de não passarem muitos carros por ali, tinha uma quantidade razoável de animais atropelados nas beiradas da estrada. Isso me fez pensar que levaríamos quase uma hora para atravessar aquele trecho – já que, para nosso azar, o dia estava sem vento – se estivéssemos de carro, porém, seriam no máximo 15 minutos. Se não fossem as capivaras para atrapalhar o trânsito, certamente muitas pessoas que passavam por ali nem iam se dar conta de onde estavam. Além disso, os sons ali eram muito variados, cantos de aves e barulhos de insetos, coisa que já não se escuta direito de bicicleta em dias de vento, quem dirá atrás dos vidros de um automóvel com ar condicionado.

Depois do Taim, a estrada continuava bonita, mas sem a mesma magia. Tudo que não era pasto para gado, era plantação de pinus, por isso a paisagem variava de grandes propriedades a propriedades enormes. O tempo ia passando e a próxima cidade continuava longe, a possibilidade de que, talvez, não conseguíssemos chegar naquele dia começava a aparecer. Por conta disso, eu comecei a pedalar mais rápido, a querer parar menos. Fazia um cálculo mental da velocidade, quilometragem e número de horas restantes, daria tudo certo se não fôssemos devagar e se não parássemos mais de 10 minutos. O Gil, por outro lado, por não ter tanto problema em acampar em qualquer lugar e por estar com um calo nas nádegas, queria parar bastante e fazer alguns trechos a pé, para não forçar o machucado. Aos poucos, os dois foram se angustiando por querer que o outro fizesse o que esperava e por sentir essa pressão de volta. Numa altura do campeonato, resolvemos botar as ânsias pra fora e enfim decidimos uma estratégia: eu iria a 20km/h sem parar e o Gil iria a 25km/h, e aí podia fazer algumas paradas no meio do caminho.

Depois de algumas boas horas, mortos de fome e sono, chegamos na cidade de Santa Vitória do Palmar. Era quase 10 da noite, e nosso contato já estava vindo nos buscar. Quando ainda estávamos sentados esperando, dois homens se aproximaram, um deles me cumprimentou e depois ao Gil. Virou para o outro e murmurou “Viu só, eu disse que eles não iam me reconhecer”. Ficamos nos olhando sem entender direito o que estava acontecendo. Em seguida o homem explicou que ele era o motoqueiro que encontramos na Quinta, depois do almoço. Conversamos um pouco com ele e com seu pai, que o acompanhava, e finalmente seguimos para um abrigo, com as pernas um pouco bambas.

M.

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Passando por Pelotas

A vontade de visitar a cidade de Pelotas surgiu da mesma forma que Porto Alegre: soubemos de um espaço libertário e decidimos conhecer as pessoas e ideias que circulavam ali. Enquanto o desvio para a capital riograndense foi de 150km, Pelotas ficava apenas a 62km da praia de Cassino. Com um bom vento de leste-sudeste, levantamos da cama empolgados apesar do céu encoberto e do frio.

“Sempre pelo litoral.” Mesmo não tendo compromissos com datas, esta frase nos guiava. Rapidamente aprendemos que parar nas cidades, no mínimo, duplicava nossos gastos. Porém, sair da rota e passar em locais indicados também era tanto uma boa forma de conhecer coisas interessantes, quanto uma chance para conseguir contribuições e propulsionar ainda mais a viagem. Se, independente de uma rodovia específica, fôssemos de um espaço libertário para outro, sempre arranjaríamos uma maneira de equilibrar as contas. Por que, então, saímos tão poucas vezes de perto da costa? Acho que era a vontade de entrar logo no Uruguay. Sendo o primeiro novo país que visitaríamos, sempre faltava cada vez menos para ouvir outra língua, comer de outro pão, conhecer outra hospitalidade. Assim que, talvez não tão conscientemente, pedalamos poucas vezes fora do sentido norte-sul no Brasil.

Como sempre fazíamos contatos apressados, chegamos na cidade sem o endereço da casa 171. Uma garoa começou a cair enquanto cruzávamos a ponte sobre o rio Pelotas, engrossando, mais adiante, e nos forçando oportunamente a esperar numa padaria. Enquanto M. telefonava, fiquei observando os pingos caírem sobre os alforjes empoeirados. Longe de lavar as bolsas, a chuva acabava encardindo e desbotando a lona de que eram feitas. Mesmo sem as capas de chuva, sabíamos que nossos equipamentos estavam protegidos, pois havíamos forrado os alforjes com sacos de plástico resistente. Uma gota caía, escurecia a cor do tecido e impregnava o pó das várias estradas que percorremos, formando uma memória invisível do que passamos.

 

Sobre o rio Pelotas

Enfim, nossa chegada foi recebida por um chileno, Filipe, que veio ao Brasil com intenções de ficar. Em seguida, apareceram um colombiano e dois argentino. Na antiga casa açoriana, moravam oito pessoas, metade estrangeiros. Se era para falar outro idioma, não precisávamos ir tão longe. Percebemos que cada um falava um castellano diferente: o chileno era aberto e rápido; o colombiano, enrolado e soturno; os argentinos, animados e um pouco mais claros. Nossas conversas rolavam em torno da situação política de cada região natal deles, as possibilidades ciclísticas dos vários lugares que haviam passado, indicações de hospedagens, parques, rios, contatos de amigos em diferentes países da América do Sul.

Enquanto isso, todos esperavam pela comida. Passava das três da tarde e a fome já não cabia na barriga. Na verdade, achei aquela história esquisita. Sempre cozinhávamos juntos nesses espaços coletivistas e, daquela vez, aguardávamos o almoço chegar lá pelo meio da tarde. Quando chegou, só pude achar fantástico: um amigo desse pessoal trabalhava num restaurante vegetariano e orgânico. Todos os dias, após o serviço normal, ele trazia os restos daquela deliciosa comida para umas dez ou quinze pessoas. Nosso trabalho era comer tranquilos e lavar a louça. Se queríamos comida diferente, aquele também era o lugar.

Mais tarde, aproveitamos uma parada na garoa para andar pelas redondezas. Havíamos ouvido falar do Quadrado, um pequeno pier com esse formato, onde estacionavam canoas, barcos de pesca e pequenas lanchas. Ali se reunia o pessoal mais novo da cidade para conversar, beber e fumar. Enquanto andávamos tentando encontrar a rua certa, passamos por antigos galpões e fábricas, provavelmente da época do antigo porto, que hoje estavam cobertos de grafites. Eram Bombs, estêncils, grafites figurativos, pixo. Foi fácil perceber uma pequena rixa entre os alunos da faculdade de artes e os pintores da rua. Os estilos e certos atropelos davam esse indício.

 

Fruto do trabalho escravo

Mas assim que chegamos ao local desejado, a chuva voltou a cair e ficou mais forte. Corremos para um bar que havia ali pertinho. (Viajando com pouca roupa, temos sempre que nos proteger e evitar sujá-las.) A televisão estava ligada num programa de “jornalismo criminal”, os dois clientes discutiam com o dono as barbaridades anunciadas, o ruído da chuva atravessava o telhado de amianto e respingava através da parede de bambu. Aproveitamos para jogar uma partida de sinuca, o que não fazíamos há muito tempo, e conversamos tranquilos sobre a viagem e o próximo trecho, que seria pesado. Torcíamos para a chuva passar e entrar um belo vento de nordeste, para que a travessia do Taim fosse mais fácil.

Naquela noite, tivemos a oportunidade de presenciar uma varieté. Havia na casa uma sala com luzes coloridas que servia de palco, onde se apresentaram vários artistas, entre malabares e músicos. Esse evento, aberto ao público, além de reunir um pessoal interessado, também servia para arrecadar contribuições para reformar a velha casa. Na época, escrevi num email o seguinte: “O local é um pouco bagunçado, porém bastante colorido. Claro que é fruto da casa ser velha e reconstruída com material reciclado (ripas, portas, móveis, muita coisa encontrada na rua). Essas casas antigas são sempre compridas, coladas com as vizinhas, com janelas apenas para a rua e para algum jardim interno. Isso faz com que sejam locais pouco iluminados e bastante úmidos. A altura do pé direito aumenta a sensação de que falta alguma coisa. Aqui, em especial, estão tentando aproveitar o forro para construir novos quartos. Só que o telhado é ruim e tem muitas goteiras. Quase todas as janelas têm vidros quebrados e o vento encanado é arrepiante. Combinado com a umidade e a pouca iluminação, daria uma boa casa mal-assombrada – não fosse o espírito anarquista, a fraternidade e a intensa movimentação e atividades que acontecem todos os dias.”

malabares

A história de Pelotas, como toda a invasão europeia na América, é cruel e literalmente sanguinária. A cidade retirou sua riqueza das grandes fazendas de charque que se instalaram na região. Eram enormes galpões abertos, onde a carne salgada ficava pendurada para desidratação. O sangue escorria para os rios tornando-os vermelhos, enquanto o ambiente insalubre obrigava uma grande distância do centro urbano. Os animais eram gados xucros que haviam se soltado quando os jesuítas foram expulsos da região. Estima-se uma matança de 400 mil cabeças por ano! (wiki-LINK) Além disso, para essas fazendas, foram trazidos negros que trabalhavam como escravos. Por isso, ainda hoje, certas desigualdades sociais continuam esfolando muita gente e constrangendo o poder local.

Na casa 171, foi onde aprendemos a fazer serigrafia, vimos o documentário Ciclovida, e também trocamos informações sobre compostagem, fotografia, software livre e coletivismo.

Esquentando as pernas no fogão à lenha

 gil

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Rio Grande

A cidade de Rio Grande é dividida, de maneira geral, em duas partes: o centro, que fica à beira do canal que liga a Lagoa dos Patos ao mar; e o Cassino, bairro praiano majoritariamente de veraneio, que dá acesso à praia de mesmo nome. Passamos a maior parte do tempo no Cassino, que estava submerso em obras para a próxima temporada.

Os primeiros dias, passamos com Dudu e Valentina. Lhes conhecemos em uma das oficinas que realizamos em Porto Alegre, e sua disposição nos ajudou muito, especialmente no trecho de lá até o Chuí. Depois, buscamos, através do couchsurfing, outro lugar para ficar. Nossa intenção era permanecer mais alguns dias ali, já que as bicicletas estavam na revisão (gentilmente oferecida pela bicicletaria Nobre). Também estava chegando o dia mundial sem carro, e, como vimos vários cartazes de divulgação, pensamos em participar dos eventos e organizar uma oficina.

Encalhado em 1975, o barco Altair está quase desaparecendo na areia

Na escola de vela do iate clube de Rio Grande

Samantha e Milena nos receberam em sua casa, também no Cassino. Tinham muitas histórias para contar, especialmente sobre viagens que haviam feito de carona. Achei incrível. Viajar sozinha de carona é tão desafiador, que a reação negativa das pessoas é mais que previsível. É melhor agarrar-se em argumentos de que é perigoso, que a pessoa teve sorte, que ela é maluca ou tem algum super-poder, do que ponderar que isso seja possível. Num universo não muito distante, as pessoas se assustam com mulheres que saem de noite, que andam na rua ou que respondem a alguma barbaridade que escutam sem estarem acompanhadas da “protetora” presença masculina.

Além das viagens, o sistema de caronas também funcionava como meio de transporte de curtas distâncias. No dia em que voltávamos da oficina na FURG (Universidade de Rio Grande), encontramos dezenas de estudantes pedindo carona na rodovia, para voltar para casa. E não havia distinção: garotas, garotos, pessoas sozinhas ou em grupos. Ficamos ali uns 15 minutos até chegar nossa vez e embarcarmos de volta para o Cassino.

Acabamos não participando das bicicletadas que ocorreram no dia mundial sem carro. Porém, realizamos uma das oficinas no gramado da FURG. As pessoas que participaram – e que gentilmente aguardaram nosso atraso – se mostraram muito interessadas, todas com algum plano de viajar assim um dia. Depois da oficina, um dos participantes foi nos visitar na casa das meninas e nos presenteou com lanternas de led para as bicis.

Pôr-do-sol na Lagoa dos Patos

Cuidado: pedestres!

Tínhamos planos de sair de Rio Grande e pegar a 471 sentido Chuí. Porém, alguns dias antes de partirmos, descobrimos um espaço em Pelotas e decidimos passar por lá para conhecer. Num dia de vento leste, carregamos novamente as bicis e voltamos para a estrada.

M.

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Chegada em Rio Grande

Recém passava das cinco da tarde quando desembarcamos em Rio Grande. A travessia foi de congelar os ossos: o sopro do Nordeste continuava violento e o motor do barco tratava de cuspir a Lagoa dos Patos em nossos rostos.

Desembarcamos e fomos direto à procura de nosso contato. Lúcio dá aulas de windsurf e tem uma escola de vela dentro do iate clube da cidade, onde passaríamos umas noites. Como não sabíamos se ele estaria comunicável, já que poderia estar no mar, resolvemos ir até o iate clube procurá-lo. Não encontrando-o, batemos papo com o porteiro e depois arranjamos um lugar para sentar e esperar.

Canal de Rio Grande

Passados alguns minutos, um homem se aproximou. Também era ciclista, e já havia feito algumas pequenas viagens. Logo perguntou-nos se tínhamos lugar para ficar. Respondemos que sim, que íamos ficar na escola de vela, mas não estávamos conseguindo falar com nosso contato, e por isso dávamos um tempo ali. Ele se mostrou preocupado, murmurou alguma coisa e saiu ligeiro. Quando voltou, nos disse que tinha perguntado ao dono do terreno ao lado e no museu de oceanografia se podíamos acampar ali, mas que não havia tido êxito.

De qualquer forma, a secretaria do iate clube fica ali na frente, dá pra ir conversar, assim já acertam as coisas – disse-nos o ciclista – O nome da coordenadora é Fulana, eu trabalho aqui também, vamos lá falar com ela.

Fiquei um pouco receosa, pensava que talvez fosse melhor esperar pelo Lúcio, mas, quando me dei conta, já estávamos entrando no escritório. Lá dentro, quatro jovenzinhos trajados de anúncio publicitário discutiam com a secretária sobre uma lista de convidados para sua festa.

– Oi, precisamos falar com a Fulana

– Sobre o que seria? – nos perguntou a moça através do batom sorridente

– Preciso falar com ela, é sobre uns ciclistas que precisam ficar aí no Yacht Club, eles estão viajan…

– Creio que não seja possível.

– Bom, eu só preciso falar com ela, aí resolvemos.

Como a mulher parecia bem atarantada com os garotos, que faziam ligações, discutiam entre si e mudavam de ideia, balançou o braço nos indicando a sala ao lado.

– E vocês, o que seria? – nos idagou, com a mesma felicidade plástica que havíamos visto do outro lado da porta.

Nosso amigo explicou a situação, e a cada palavra que falava, os músculos faciais da moça se rearranjavam, contraindo-se onde antes relaxavam e vice-versa, até modelarem uma expressão de seriedade com pitadas calculadas de irritação.

– Bom, O Comodoro não me falou nada sobre isso. Mas é impossível. Nós, do Yacht Club, temos um local de alojamento para velejadores, mas é preciso ser velejador para usá-lo. Não, não há maneiras.

Ainda tentamos mais um pouco. Perguntamos se não podíamos acampar em algum cantinho do imenso gramado, e depois dissemos que tinham nos indicado aquele lugar para ficar, que podíamos ficar na escola de vela, já que só íamos dormir, e mais nada. A moça continuava com os trejeitos, parecia se divertir na sua intransigência, e, devo dizer, acabava nos divertindo um pouco também, com as caretas e suspiros impacientes.

– Não, ninguém pode autorizar nada sem que Os Comodoro tenha conhecimento. Olha, fazemos o seguinte: eu vou ligar para Os Comodoro. Provavelmente Eles não vão atender, porque estão ocupado, mas vocês podem aguardar.

Fomos lá para fora. O rapaz que nos acompanhou estava perturbado por não ter conseguido ajudar. Dissemos a ele que relaxasse, qualquer coisa tínhamos outros lugares para ir, não era preciso se preocupar, de verdade. Depois que ele foi embora, sentamos no meio fio e começamos a descascar mixiricas.

Logo, a moça apareceu de novo. Veio andando até onde estávamos e parou na nossa frente. Esperou que nos levantássemos, mas, como não fizemos, começou assim mesmo. Ficou uns 3 minutos falando, vomitou um monte de frases repetitivas, invocou Os Comodoro algumas vezes, e, como não contestávamos nas deixas dramáticas de seu discurso, emendava com alguns improvisos meio bobos como “a escola de vela é uma escola, foi construída para dar aulas, as pessoas não podem dormir lá dentro porque ela não foi feita para isso”. Depois de esgotar suas citações indiretas ao estatuto, desculpou-se do fundo do coração por não poder fazer nada, e lembrou-se de abrir o sorriso. Ela ainda ficou ali parada uns segundos antes de ir embora, talvez esperasse alguma resposta ou lamúria, mas como estávamos com a boca cheia de mixirica, infelizmente não podíamos fazer nada sobre o assunto.

Um tempinho depois, Lúcio apareceu. Disse que veio nos resgatar, íamos para a casa dele. Encaixamos as bicicletas e as bagagens no carro e partimos. Ele não se desculpou conosco sobre o acontecido. Ao invés disso, quando estávamos passando na frente da secretaria, abriu o vidro e soltou alto suas críticas para as empregadas que agora saiam do expediente.

– O Dudu me disse que ele e a Valentina vêm para Rio Grande essa noite. Como não vai ter mais ninguém na casa da irmã dele, vocês podem ficar lá também. Mas hoje fiquem lá em casa, tranquilaço.

M.

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A Estrada do Inferno

Desde Curitiba até Porto Alegre, viemos ouvindo terríveis histórias sobre o trecho final da BR-101. Diziam que era uma rodovia abandonada, esburacada, mal-assombrada, que recebia o curioso apelido de A Estrada do Inferno. Assim, a expectativa era grande, mas, ao dobrarmos à esquerda depois de Palmares do Sul, fomos recebidos por bandos de azulões cantadores e um cheiro de pasto que anunciava a mudança de estação.

Túnel Verde, indo para Palmares do Sul

O trânsito era escasso. Compunha-se na maioria de caminhões de toras e aí o espelho foi essencial, pois quase não tem acostamento ou o mato já invadiu bastante.

Quando o sol ia baixo, chegamos num vilarejo chamado Frei. Havia uma igreja, ao lado a escola, na frente um mercadinho. Compramos provisões e ao ver uns homens saindo do salão paroquial, chamei M. para irmos lá pedir um espaço.

– Não, não. Ninguém pode ficar nas dependências da igreja.

Quis argumentar, apelar, mas sabia que não adiantava. Na hora, tinha ficado chateado e aí provoquei. Mas se a eles não lhes importava, então o diálogo nem havia existido. Fingiram que não ouviam, entraram no carro e tchau. Pensamos em ir na escola, mas ainda estavam em aula. Não adiantaria.

Pela estrada vinha um cavaleiro:

– Boa tarde, senhor. Por acaso não saberias onde poderíamos passar a noite? Procuramos um campo, uma casa com jardim, um galpão. Saberias de alguém que pudesse nos ajudar?

– Ah, não sei. Ali na frente, onde sai aquela antena, tem um alemão que acho que aluga alguma coisa.

Ele estava bem arrumado, lenço vermelho no pescoço, bota lustrada.

– É que buscamos somente um lugar para armar a barraca.

– Olha, no próximo povoado tem um grupo de cavaleiros que vai passar a noite aí. Procura no ginásio atrás da igreja pela Chama Gaudéria. É até capaz que lhe deem comida.

Dito e feito. Chegando em Bacopari, conversamos com um pessoal e nos deixaram dormir com eles no ginásio. Enquanto arrumávamos as bicicletas num canto, os gaúchos preparavam aquele salão paroquial para o baile da noite. Quando fui tomar banho, encontrei um cara guardando a entrada do banheiro: sua esposa tomava banho no único chuveiro quente do lugar. O tempo de espera foi suficiente para criar uma empatia entre nós.

Descansando antes da janta

Mais tarde, estávamos deitados e limpos quando nos chamaram para comer: éramos convidados. Mas antes de entrarmos no salão, meu novo amigo, Marcos, nos chamou:

– Vocês tem algum objeto insignificante, uma moeda que seja? É que eu vou lhes dar um presente e se não for trocado por algo, aí cria uma inimizade.

Trouxemos um bótom da bicicletinha, daqueles que fazemos.

– Uau, ótimo!

Então Marcos tirou de dentro de seu casaco um punhal.

– Eu faço facas artesanais. Esta é com aço de mola de fusca, cabo de madeira, bainha de retalho de couro.

Aquele gesto nos emocionou. Durante a janta, fiquei pensando na vida daquelas pessoas. Marcos vivia num assentamento com mais algumas famílias e tiravam seu sustento de pequenas atividades do campo (no caso do nosso amigo, de uma loja agropecuária). Não tinham quase nada de terras, mas mesmo assim traziam a dignidade encarnada. Muito me admirava a preocupação estética que tinham. Se vestiam com esmero, as cores eram bastante variadas, traziam diversos adereços como boinas, lenços, anéis, ponchos, capas, chapéus. Se acercavam com amizade e alegria, mesmo a desconhecidos como nós. O código de hospitalidade parecia dizer que todos eram iguais, não cabendo a alguns uma parte boa enquanto a outros algo pior. Ali, durante aquela semana de cavalgada, recorrendo as fazendas e povoados da região, todos eles se destacavam tanto pelos gestos e vestimentas que era impossível não comparar com o descaso dos hábitos urbanos.

Apesar desse clima fraterno, era evidente a presença da cultura machista. Por exemplo, a cavalgada gira em torno de uma homenagem a um falecido nativo da região e eram sempre homens, por mais que o cartório registre uma quantidade parecida de ambos os sexos. Outra coisa foi termos jantado sem a presença das mulheres em nossa mesa. Onde estavam aquelas que havíamos visto mais cedo? Além disso, por mais que pareça lindo, os famosos gestos cavalheirescos apenas reforçam diferenças sociais que não deveriam existir.

Pessoal da cavalgada da Chama Gaudéria (Bacopari)

No caminho até a cidade de Mostardas, havia dois lugares interessantes para conhecer: a lagoa Bacopari e o Farol da Solidão. Porém, as estradas de areia nos impediram de chegar até lá. O mesmo aconteceu com o Balneário Mostardense. Mas antes, pela primeira vez, fomos alcançados por um cicloviajante. Zeca vinha de Joaçaba e tinha seus dias de férias para ir até Chuí. Como havia pego chuva em alguns trechos, queria aproveitar bem o vento para recuperar o atraso. Assim, foi engraçado, pois nos encontramos várias vezes até São José do Norte, porém sem nunca pedalarmos juntos: enquanto descansávamos, ele passava, e vice-versa.

Em Mostardas, fiquei surpreso com o tipo de arquitetura que encontramos. Era claramente o estilo açoriano que há no litoral catarinense. O curioso é que, de todas as cidades litorâneas que passamos no Rio Grande do Sul, essa foi a primeira com sinais portugueses. Suponho que seja porque não há como uma embarcação parar nessas imensas praias. Toda a colonização foi feita dentro das lagoas, como Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande. Aí reconhecemos facilmente os mesmo casarios de Florianópolis e Laguna. E nessa parte sul, também conseguíamos identificar semelhanças de sotaque com os manezinhos descendentes de açorianos de Santa Catarina, fato esse que não ocorre nem nas citadas cidades lacustres nem nos novos balneários do norte.

No caminho para Mostardas, uma região de campos

As pessoas da cidade eram muito simpáticas. Todas. Quando ainda estávamos decidindo se ficaríamos ali ou não, perguntamos sobre um local para acampar e várias soluções apareceram (mas nenhuma era muito segura, como por exemplo, “ali na praça já ficou gente em barraca. Acho que a polícia não vai fazer caso”.) Como o vento estava bom, seguimos para Tavares.

Assim como Mostardas, Tavares parece ter sido uma cidade de passagem da época das tropas (não encontrei informações relevantes na internet). Chegamos no fim da tarde e fomos direto perguntar onde estavam os bombeiros. Porém, o endereço que obtivemos foi o da polícia. Já que o tio de M. nos disse que podíamos contar com os brigadianos gaúchos, fomos à delegacia. Havia apenas um policial.

– Estamos viajando de bicicleta, precisamos de ajuda, etc.

– Está bem. Mas me digam, o que realmente precisam?

O sargento Rudimar nos levou para os fundos, por dentro da casa, onde havia um pátio de areia com sinais de que recém terminavam uma reforma. Dentro, vimos gulosamente dois beliches num quarto.

– Podem armar aí, onde achem melhor. Mas para usar o banheiro, terão de dar a volta, pois essa porta de trás fica sempre fechada.

Tudo bem. O vento estava forte e toda aquela areia subia alto. Na verdade, havia areia em todo lado. Sempre que abriam uma porta, o lugar se sujava. Começamos a desmontar as coisas da bicicleta.

Uns minutos depois:

– Olha, se quiserem, podem usar o dormitório. Desse jeito é mais fácil, mas aí vocês terão que ficar apenas entre o quarto e a cozinha. Imaginem se as pessoas que passam olharem gente estranha circulando pela delegacia. Não vai pegar bem. Assim, vocês ficam aí tranquilos fazendo comida, conversando, e ali na frente somente os policiais. Isso é o que podemos oferecer, não temos cama de casal.

Depois disso, ficamos bem à vontade. Tomamos um bom banho e jantamos. Ali pelas nove horas, chegou outro policial. O sargento nos explicou a situação.

– Aqui na cidade tenho apenas dois soldados à disposição. Como são quatro turnos de trabalho, aí temos um problema. A forma que achei para resolver foi fechar a brigada em um dos turnos. E qual é o período que tem menos ocorrências? Exato, fechamos pela manhã! Isso quer dizer que vocês cuidarão do soldado Pedone aqui e amanhã cedo, antes de terminar o turno dele, às sete horas, vocês terão que sair. Tudo bem? Caso ele tenha que atender alguma coisa, aqui estão as chaves, para alguma emergência. Por hoje já deu para mim. Boa sorte com a viagem e não esqueçam de falar bem da brigada de Tavares no blog de vocês.

Depois dessa recepção, tivemos uma ótima noite. Mesmo tendo rodado 123km até ali, no dia seguinte estávamos com energia para os 138km que teríamos até a próxima cidade. Um forte abraço aos amigos de Tavares!

Depois de intermináveis quilômetros e um bom vento a favor, chegamos a São José do Norte. Todo esse trecho da Estrada do Inferno possui apenas dois tipos de vegetação: campos e pinheiros. Pelo andar da carruagem, a região terá o destino de todas as planícies: primeiro pasto ou agricultura diversificada e rotativa; depois pinus ou eucalipto. E por último, porque depois não haverá mais nada, soja. Hoje, as porções de “reflorestamento” estão por todo o litoral onde passamos, já que essas árvores dão bem em areia e precisam de muita água, o que aqui no sul não falta pois há muitas lagoas (vi regiões no oeste catarinense em que plantações de eucalipto secaram os riachos que irrigavam campos de diversas famílias e seus poços). Tragédia ambiental parece pouco para esse tipo de ambição.

Logo que chegamos, fomos direto ao terminal marítimo descobrir o horário do barco para Rio Grande. Por ali, é curioso a utilização de charretes para o transporte de mercadorias. Enquanto esperávamos, conhecemos o centro antigo, também de colonização açoriana, que está preservado. No entanto, a cidade era feia e a quantidade de cachorros sujos e doentes jogados nas ruas se confundia com os trabalhadores do pequeno porto dando um ar decadente. Assim que pudemos, cruzamos o canal.

Porto de São José do Norte

Chegando à cidade de Rio Grande

gil

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Telegráfica de Mar del Plata

Hoje pela manhã fomos levar as bicicletas para uma bicicletaria a fim de fazer uma limpeza geral e regular cambio e freios. Nós temos algumas ferramentas para uso emergencial, mas nos falta várias especiais para realizar esse tipo de manutenção, além de tempo e espaço apropriado. Fomos então a um lugar chamado Curuchet Bicicletas, uma recomendação de um amigo nosso, o qual dizia serem profissionais muito bons, senão os melhores da Argentina. Os irmãos Curuchet eram ciclistas de corrida e após terem ganhado vários prêmios (inclusive olimpíadas) se tornaram heróis nacionais. E possuem essa tal bicicletaria em Mar del Plata onde fomos lhes pedir uma mão.

– Hola, que tal? Nosotros somos de Brasil y estamos haciendo un viaje en bici desde Curitiba hasta Ushuaia. Por esta ciudad estar en el medio de nuestro camino piensamos en hacer una buena revision y tal vez cambiar algunas piezas. Venimos acá pedirles una ayuda por que nos recomendaran y que sabemos lo bueno que es su trabajo.

– No, no. Acá no se hace este tipo de cosas. Ayudar nosostros yá ayudamos hospitales, geriátricos, comedores…

– Pero somos ciclistas! Estamos hace más de tres meses en la ruta con esta misma bicicleta y solamente precismos arreglar algunas cosas.

– No.

Foi a segunda vez que passamos por esse tipo de situação, mas sem dúvida foi a pior de todas, pois estávamos entre ciclistas. Em geral, os esportistas têm enormes dificuldades de conseguir patrocínio, muitas vezes não estão com o equipamento adequado e não conseguem competir. Sabem disso e são solidários com os seus.

Nós, além de ciclistas, somos viajantes. Precisamos de pouquíssimas coisas, mas sempre coisas necessárias. Por tudo isso, fiquei imensamente transtornado com a conversa que tivemos na bicicletaria dos Curuchet. O total desinteresse, a falta de tato e grosseria foram tamanhas (não dá para reproduzir no diálogo acima) que saímos o mais rápido possível do lugar para evitar que o sujeito falasse mais barbaridades.

“Aqui nao se faz esse tipo de coisas”? Nós não acreditamos em heróis, mas, por outro lado, me veio a pergunta: Como podemos respeitar essas pessoas? Como é possível que a Curuchet Bicicletas seja referencia para toda a Argentina?

A algumas quadras  dali conseguimos de graça uma revisão geral para o dia seguinte.

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