Morretes

Outubro/2009

No dia 31/10, sábado, peguei a bicicleta e resolvi ir para Morretes. Equipei os alforjes com uma garrafa de 500ml de água, dois pacotes de bolacha, luvas, protetor solar, câmera de ar reserva, bomba de encher pneu, chave inglesa, chinelos, câmera digital e chapéu.

Pesquisei no bikemap.net um caminho para sair de Curitiba: bastava pegar a BR-116 ali pelo Jardim Botânico e ir até Quatro Barras (24 km).

Pedalar em rodovia é uma coisa fácil, mas barulhenta. Saí às 7:30 pensando ser mais tranquilo só que todo mundo fez o mesmo pois era início de feriado.

A primeira parada foi num posto de gasolina e sentei-me ao lado de um lava-ônibus onde havia sombra. Comi umas bolachinhas e logo apareceu um homem meio sujo, camisa de goleiro, bermuda de praia, boné velho e uma cara queimada e feia.
– Ô fera, sabe quantos quilômetros até a próxima cidade?
– Deve ser mais uns 5 km até Quatro Barras.
– Cê não me vê umas bolachas? Eu e os guri tamos vindo lá do Rio Grande, indo pra São Paulo. Caminhando.
– Porra.
– Cê conhece a serra dos 12? Aquela do Rastro?
– Ahm.
– A gente tava vindo pela 101 e um dos guri tem família em Xanxerê, acabamo subindo por ali e depois continuamo pela 116.
– Saíram quando?
– Hum… dia 3 de julho.
O pessoal que lavava o ônibus deu uma chiringada na gente sem querer.
– Eita, toma banho de manhã é bom, mas não assim.
– Ó, pega aí o resto do pacote. Prazer.
– Luis.
– Gil.
Apertamos as mãos e segui.

Em Quatro Barras, fui à central de informações turísticas. Andando pelo centro, vi que a cidade é ajeitada e na central descobri que pela região tem um monte de cachoeiras, fazendas, trilhas para caminhada e bicicleta. Além disso, é caminho para o morro do Anhangava, início da trilha do Itupava e a antiga Estrada da Graciosa passa por ali.

Saindo de Quatro Barras

Peguei um mapa da tal estrada, oficialmente chamada de Dom Pedro II, com todas as distâncias entre os atrativos que ela continha (pontes, grutas, riachos), num total de mais 24 km, e com o sol já batendo forte, rumei mato adentro. Mas antes parei numa boa padaria para tomar um café decente.

No início, a estrada tem um pouco de asfalto, logo alterna entre asfalto e brita das grandes (como 1a camada de pavimentação), o que dificulta muito a pedalada, e depois apenas chão batido em mais da metade do caminho.

Faltando quatro quilômetros para pegar a PR-410 (nova Graciosa), havia uma bifurcação: à direita o antigo caminho mesmo, à esquerda uma estrada como a que eu vinha. Peguei o antigo caminho que era mais fechado (árvores tapando o sol, ufa), mas muito mais tortuoso, tanto para os lados como para cima e para baixo.

Na PR-410 começou a descida. Poucos quilômetros depois de onde entrei há um mirante. Aproveitei para tomar caldo de cana com pastel de carne e queijo. Era o almoço.

Bem empanturrado de caldo de cana, devido aos vários “choros”, fui curtir a vista.

Tinha um cara sentado numa moto, parado, olhando. Apoiei a bicicleta no meio-fio perto dele.
– Tá descendo?
– Aham. Primeira vez que vou de bicicleta.
– Antigamente eu vinha sempre. Ia pra Antonina; lá é muito bom.
– Quantos quilômetros depois do trevo para Morretes?
– Uns 17. Mas tem uma subidinha que o cara olha e não dá importância. Mas a cada curva a gente fica pensando “agora começa a descida” e nada. Cansa.
– E a volta? Eu não vou conseguir subir tudo isso aqui.
– Eu costumava voltar de trem. Acho que pelas 4 ele sobe pra Curitiba. … Pô, era muito bom… Vais descer e sentir as juntas tudo doida, treme demais nesse paralelepípedo que tem aí mais pra frente.
– Hum.

Chegou um monte de gente e começaram a tirar foto com flash e gritar e falar asneira. O rapaz fez uma careta, desejou-me boa descida e se foi.

Desci tranquilo, sem abusar da velocidade (25 km). No final, antes de chegar no trevo e com as mãos rangendo a cada movimento, parei numa bica, lavei o rosto e passei protetor. O resto do caminho até Morretes (7km) foi quase plano e o sol das 2 estava muito forte. Parei a 1km da cidade para tomar mais um caldo de cana. (Fico pensando se já inventaram algo melhor que isso para quando está quente)

Uma virada para trás depois que começou a reta escaldante até Morretes
Fui direto para a estação certificar-me do horário do trem. Saía às 3. Comprei passagem, fui numa lanchonete comer um misto quente e voltei para esperar (faltava meia hora). Enquanto estava sentado na escada da entrada, fritando a bunda no granito, sentou um guia de turismo ao meu lado e começou a falar do calor.

– É… está muito quente mesmo.

Conversamos sobre ecoturismo, trilhas na região e o calor. Logo ele foi coordenar a entrada dos grupos de turistas (não lembrei de perguntar porque havia uns 10 ônibus de secundaristas na cidade).

Embarquei a bicicleta no vagão de carga. O vagão da classe econômica tinha os bancos de costas para a subida pois dava muito trabalho virar cada um (vagão). Aquilo já me fez pensar no estômago embrulhando, mas todo mundo fez as 3:30 horas de subida bem torto e feliz.

Estação Pico do Marumbi

Cheguei em casa às 19h e, depois do banho, senti-me cheio de energia. Essa coisa de ficar trabalhando no computador a semana toda, o mês todo, acaba matando a pessoa. Ainda tenho que fazer uma viagem longa desse jeito. Só não posso esquecer da coisa mais importante que levei: o chapéu.

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Uma resposta para “Morretes

  1. Sergio & Cleide

    Olá Gil e Luisa!!
    Viajei lendo sua narrativa, foi ótimo, vou acompanhar essa aventura d vcs aqui pelo blog, mas ja na expectativa de ler o livro no final desta aventura!

    Quero desejar a vcs uma òtima viajem q o DEUS d vcs os acompanhem e proteja sempre.

    Abraços aos dois!!!!.

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