Guaraqueçaba

Fevereiro/2011

Esta pedalada começou meio enviesada. Havíamos combinado de sair no sábado pela manhã, mas acordamos tarde e parte da bagagem não estava pronta. Quando terminamos de organizar as coisas já era aí pelo meio dia, não daria tempo de curtir a descida da Graciosa. Resolvemos, então, sair domingo cedo.


Por incrível que pareça, os 40 quilômetros de Curitiba até a entrada para Morretes, pela BR-116, passaram bem rápido e no meio do caminho passou um caminhão muito perfumado. Fiquei um tempão tentando descobrir de que era aquele cheiro. O pessoal anda muito rápido na estrada, não deu nem para ver a carroceria. Quando senti que havia algo mais que fumaça no ar, a carga já ia pelo menos a uns quinhentos metros. Tendo refletido sobre velocidade, fumaça e pedal, descobri: era abacaxi! Fiquei rindo e sonhando com um bem gelado naquele asfalto de fritar ovo.

Como de costume, paramos no mirante para almoçar: caldo de cana, água da coco, bolacha integral de aveia com cacau. Aí apareceu a primeira falha quando recusei o copo plástico do caldero: esquecemos nossas canecas!

A descida termina numa região com várias casinhas vendendo bugiganga e comida tradicionais, sem contar locais para “esportes” aquáticos como boia-cross e o famoso “segura-na-corda”.

Sabíamos que ali em Porto de Cima tinha um camping na beira da estrada. Era umas quatro da tarde e era preciso ter em mente pelo menos um lugar certo para ficar. (Em Morretes, ficamos da outra vez num camping que é bom, mas muito longe.) Paramos e perguntamos o preço. Barato. “E esse barulho todo?” Havia vários carros com som alto. “Isso já sai. O pessoal vai embora logo que anoitecer. Aí só fica a gente aqui e o bar”. Hum, sertanejo agora, sabe-se lá o quê depois. “Muito obrigado. Tchau”.

Entre Porto de Cima e Morretes tem uma longa e escaldante planície, provavelmente um mangue aterrado. Em determinado momento, passamos pelo Corpo de Bombeiros. “Sabes que já me disseram que dá para ficar aí? Que tal tentarmos?”.

O sargento Gaspar nos atendeu e convidou para tomar um café: queria conversar, saber quem éramos antes de nos ceder um lugar. Sob o ruído da sempre presente televisão (hoje parece que para haver vida humana é preciso esse troço infernal), o sargento nos contou várias histórias sobre seu passado em Tagaçaba e Serra Negra, por onde passaríamos na ida para Guaraqueçaba.

Lá pelas cinco e meia perguntei se poderíamos ficar ali ou se teríamos que ir para outro lado pois começava a escurecer. “Sim, claro, vamos ali no gramado ver onde vocês querem armar a barraca. Só que amanhã bem cedo vocês têm que ir embora”. Tudo bem.

2011-02-22 - Viagem Guaraquecaba - 014_2

Às sete em ponto nos despedimos dos soldados e deixamos um abraço ao sargento, pois havia saído para comprar pão em Morretes.

A segunda falha apareceu depois dos primeiros quilômetros do segundo dia: M. esqueceu o óculos dentro da barraca. Olhei para meu bagageiro e pensei “é, tá bem compactado para reduzir o atrito com o ar”. Na Cidade do Barreado abrimos a barraca no meio da praça ao lado do rio e juntamos os pedaços. “Acho que dá para consertar. Ainda tem aquele arame do pão?” Mas não deu. O óculos ficava se mexendo demais no rosto, uma lente para cada lado.

Recarregamos a comida e pegamos a estrada para Antonina.

O caminho era muito bom e tranquilo. Depois de entrar para Guaraqueçaba, uns 4km antes de Antonina, o movimento reduziu ainda mais. Lá pelas tantas bateu a fome e numa vendinha onde compramos quatro ovos a vendedora nos disse que havia um lugar muito bom para descansar, onde muita gente ia passar o dia com a família e tal: o Rio do Nunes.

Realmente, o lugar era muito bom, com mesinhas cobertas, churrasqueira, água, banheiro, e o rio. Almoçamos e ficamos nadando. Essa região de mata atlântica é sempre muito quente. Tínhamos que esperar o sol baixar um pouco para poder seguir.

Até aqui a pedalada estava indo bem. O asfalto tinha pouco buraco, havia acostamento em grande parte do percurso, sombra de árvores, etc. Mas, de repente, aparece a temível estrada de terra. Na verdade, se fosse “estrada de chão batido” não teria sido tão ruim. O problema era que os próximos 76km seriam numa estrada de pedras, como um leito de rio seco. Isso reduziu nossa velocidade para em torno de 30k/dia, quase como se estivéssemos indo à pé.

Passado um tempo, sentamos à sombra numa ponte para descansar e comer. A tarde ia pela metade e a todas as pessoas para quem perguntamos quanto faltava até Tagaçaba a resposta era “uns 24km”. Desanimador… Ainda mais quando uns diziam: “aí pela frente tem uma serra braba, viu?”. Pensei que devíamos parar numa casa e pegar água gelada e frutas. Assim, na primeira estradinha entramos. Era uma associação de apicultores, onde apenas a família do caseiro estava. “Vi vocês agora há pouco, era eu que ia pedalando mais na frente”. Ofereceu água gelada. “Conhecem jaca? Esses dias apanhei uma e tava esperando amadurecer um pouco. Talvez já teja no ponto. Sabia que jaca é fruta indiana? Querem provar?”. Eu nunca tinha comido e sabia que não gostava. M. também não conhecia mas queria sentir o gosto. O troço era horrível. Gosmento, doce e muito forte. Lambi os dedos e dá-lhe água.

Faltava umas três horas para anoitecer. Será que era melhor ficar ali? Não, Tagaçaba fica só 24km mais pra frente. Dá tempo e sobra. Agradecemos e seguimos.

O pior foi que não sobrou tempo, nem água, nem energia. O céu já havia se lançado no lusco-fusco quando saímos da estrada principal e descemos para uma casa. Os cachorros latiram lá de longe e vieram espantando uns pássaros enormes e pretos, que mesmo de dia eu não saberia reconhecer: o jacu.

“Boa noite, senhora. Estamos indo para Tagaçaba. Falta muito ainda?”, “Pelo menos uns 20km”, “Virge maria, acho que não vai dar. Poderíamos passar a noite aqui? Temos barraca, comida, tudo”, “Olha, eu não conheço vocês mas vou dar um voto de confiança. Tem esse espaço aí pro lado da casa”. O marido chegou em seguida e ela falou que ficaríamos. Ele concordou. Um tempo depois já estávamos usando o chuveiro deles e tudo.

“Nós vimos vocês lá no trevo de Antonina, hoje cedo”, disse simpática a dona Irene. E começaram a conversar sem parar. Queríamos comer e dormir, mas não achávamos nenhuma brecha. Parecia que não falavam com gente há muito tempo, então não podiam perder a oportunidade. Em dado momento, conseguimos escapar e preparamos nosso jantar tradicional: macarrão de sêmola, tomate seco comprado a granel, sardinhas enlatadas ao molho de tomate e água. De sobremesa tinha chocolate de soja e paçoca.

De noite começou a chuviscar. Tive que colocar a lona por cima, o que aumentou terrivelmente o calor. Na manhã seguinte, com um sol muito bonito, colocamos os cochonetes para ventilar e fomos convidados para tomar café juntos. Com a televisão ligada, ouvimos histórias sobre a vida do casal, como foram parar ali, em Potinga, já que eram de Curitiba, o trabalho de confeiteira de Irene, a lida na terra de Loepoldo, os filhos caminhoneiro e administrador que trabalhavam muito, os vizinhos que eram todos preguiçosos e ladrões, os políticos que não ajudavam, e por aí vai.

A estrada exalava vapor pela manhã e o sol já estava fritando. Chegamos em Tagaçaba pelo meio dia com muito calor e uma estrada poeirenta. A vila possui uma pequena infraestrutura turística de pousadas e restaurantes. Pelo que ouvimos falar, Tagaçaba é onde o pessoal pára quando vai para Guaraqueçaba. E nós decidimos passar o dia ali, descansando.

Para tanto, primeiramente fomos largar as coisas. Tínhamos duas referências: uma de um sujeito chamado Duka, que conhecemos no Rio do Nunes. Ele indicou a casa de um amigo, dizendo que não tinha erro. A outra, foi de dona Irene. “Assim que chegarem em Tagaçaba, passando a ponte, na primeira subida à esquerda: ali mora a Zuleide, que cuida da paróquia. É só bater e dizer que foi eu quem mandou.”

E foi isso mesmo. Ficamos no galpão de festas da igreja católica, que ficava numa subida e de lá podíamos ver todo o vale. Disseram que sempre aparecia gente viajando e que deixavam o pessoal acampar ali.

Passamos o dia brincando no rio, lendo, comendo, descansando. De noite, o marido da Zuleide nos convidou para uma sopa, porém já estávamos comendo a nossa janta. Descemos mais tarde para conversar um pouco.

No dia seguinte, com o céu sempre nublado, passamos pela vila de Serra Negra do sargento Gaspar e depois de muita subida chegamos a um mirante quase em ruínas. Dali, tínhamos a visão de toda a planície litorânea até Guaraqueçaba e o relevo prometia ser mais ameno.

O bar do seu Gilson ficava na esquina que pegava para a Reserva do Salto Morato. Essa seria a nossa última parada antes de Guaraqueçaba. Tomamos um refri gelado e seguimos mais 4km na pior estrada de todos os tempos. Ficamos no camping deserto e saímos para conhecer o salto antes que escurecesse. Chegamos à cachoeira depois de 1,5km de trilha. Só podíamos ficar sentados, olhando em silêncio.

No meio da trilha havia uma piscina natural, formada na curva do rio. Água gelada? Um pouquinho.

De volta ao camping, estávamos com um probleminha. Nossa comida estava dividida entre a janta de hoje e o café da manhã do dia seguinte. Era de tarde e a fome crescia. Perguntamos sobre a lanchonete que havia na reserva: “Fechou. Não vem tanta gente quanto eles imaginavam”. Pensamos no bar do seu Gilson, na estrada ruim, no cansaço. Mas eis que surge o encarregado da reserva: “Vieram de Curitiba? Eu também gosto de pedalar e isso e aquilo”. Era um cara de uns trinta anos que gostava de esportes no meio da natureza. “Olha, estou saindo para voltar só semana que vem. Tenho umas coisas na geladeira do refeitório que talvez vocês queiram. Vamos lá ver?”. Pão, queijo, maçã e suco. Excelente! Ficamos tão contentes que a horda de mosquitos que nos atacava quase foi ignorada (mas era impossível).

No final da tarde, chegou um cara de moto sozinho. Roberto Carlos, soldador, trinta e poucos anos. Gostava de conversar e contou histórias sobre trilhas e passeios, coisa que fazia quando mais magro. Deu várias dicas de lugares para visitarmos nos arredores de Curitiba. Uma rara pessoa que, sendo trabalhadora comum e mesmo sozinha, sai no feriado para acampar e conhecer belezas naturais.

O caminho até Guaraqueçaba foi tranquilo. Havia muitas fontes de água cristalina que cruzavam a estrada, mas não paramos com medo dos mosquitos. A proximidade com a cidade se anunciava pelos morros desmatados e a areia branca no chão. Quando chegamos na estrada de paralelepípedo tive uma sensação ruim. Aquele era um lugar desolado, abandonado, onde tudo era feio e largado para apodrecer. Passamos por loteamentos onde as casas mais pareciam de uma periferia. Num município de 8,5 mil habitantes isso parece incabível! Entrando um pouco mais, passamos por casas de veraneio (?!) e adiante, depois de uma subida, fica o centro histórico.

Fomos direto comprar a passagem de volta por barco e buscar um lugar para comer. A passagem custava R$17 mais 15 da bicicleta. “Que absurdo! Como é que pode?! Acham que isso aqui é viagem pra lua? Turismo virou sinônimo de ladroagem ou o quê?” Depois disso a moça fez a bicicleta por 10, mas muito a contra gosto.

Sinceramente, Guaraqueçaba é apenas um lugar inóspito que, como boa parte do turismo litorâneo brasileiro, não oferece serviços de qualidade e cobra caro. Não tenho vontade de voltar lá e também não recomendo a ninguém (a não ser que vá de bicicleta, pois aí a cidade é apenas um pontinho no trajeto).

Tivemos muita sorte durante a viagem: não choveu nenhuma vez enquanto pedalávamos, conseguimos pouso no meio do nada com a dona Irene, nos ofereceram comida quando precisamos, nenhum pneu furou mesmo com a estrada daquele jeito e não passamos mal por causa de água ou comida. Os mosquitos atacaram sem piedade, por cima da roupa e ignorando qualquer repelente, o que tornou as noites um pouco difíceis. Mais uma vez, não estávamos preparados para chuva, que caso nos pegasse seria um desastre.

Foi a viagem mais difícil até agora, porém a mais aventureira.

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Uma resposta para “Guaraqueçaba

  1. Muito boa a sua narrativa. Já fui duas vezes à Guaraqueçaba, de bicicleta, em uma só pedalada, a partir de São José dos Pinhais. Aquela estrada é para provar se o cara gosta mesmo de pedalar ;-) Mas vale a pena, até chegar em Guaraqueçaba você tem lindas paisagens e pode até ter a sorte de cruzar com aves e outros animais. E, como você bem notou, ao se aproximar da cidade começa a desolação. Bem na entrada tem o lixão, bem no meio de uma clareira na mata. Depois os casebres. Um lindo lugar mas rodeado de coisas feias por todos os lados. Os restaurantes, então, acham que estão na Cotê D’Azur, pelo preço que cobram!

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