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[Vídeo] Reserva do Taim

Isso foi lá nos idos setembros de 2011, às sete e meia da manhã.

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Passando por Maldonado e pela costa de Canelones

Desde que olhamos o mapa do Uruguay, antes de sair de casa, nos perguntamos se havia um caminho de La Paloma até José Ignácio pelo litoral, pois tudo indicava que a Ruta 10 seguia lindamente a costa. Lá na fronteira, a moça da casa de informações turísticas de Chuy disse de cara: no. Assim, fomos de La Paloma direto para Rocha, passando por inúmeras lombas, o que, mesmo sob um sol fortíssimo, nos abriu a criatividade para compor duas letras de música. A cada parada no final de uma subida eu pegava meu bloquinho e anotava, desviando as gotas de suor do papel, um par de versos. Quem sabe mais pra frente coloco uma delas gravada aqui.

A Ruta 9, que passa pela capital do departamento,  acompanha paralelamente a 10, porém, além do relevo acidentado, o trânsito era mais intenso. Em algum momento, deveríamos passar a Laguna Garzón e então daria para voltar para o litoral. Mesmo tendo várias entradas com placas confusas conseguimos encontrar a estradinha de terra (cheia de condomínios em construção) que levava ao Balneário de José Ignácio.

Nos breves momentos que estivemos naquele lindo lugar, descobrimos que o govierno queria construir uma ponte que desse continuidade à Ruta 10, mas que iria fazer um enorme estrago nas redondezas da tal laguna. O plano ia mais longe: duplicar a rodovia por cima da duna até Punta del Este, ideia que traria não apenas o progresso para os uruguayos como para a fauna, a flora, a praia e o mar (tudo isso já afetado pelo Terminal da Ancap, agência nacional de derivados de petróleo). Passamos por esse trecho com o sol se pondo, atravessando o Balneário Buenos Aires, Manantiales, La Barra, todas regiões com aquele chique desperdício de lojas e mansões. Entramos em Maldonado pelo bairro de El placer, lugar um pouco sinistro de noite, mas que nos levava diretamente para o centro onde encontraríamos nossos amigos, Camila e Gonzalo.

Foram quatro dias de chuva que passamos numa casinha da periferia de Maldonado. O tempo ruim não impediu que fôssemos conhecer um pouquinho de Punta del Este, observando aquela estranha cidade de cima de uma antiga caixa d’água da OSE (cia de água do estado).  Também não impediu de conhecermos de bicicleta o Arboretum Lussich, um parque onde fizemos várias trilhas e pudemos ver quase todo o departamento, Punta Colorada, Cerro Pan de Azúcar, Portezuelo, Chihuahua, Laguna del Sauce, Punta Ballena, Maldonado e Punta del Este. O que a chuva e o friozinho estimularam foram as conversas em casa, o intercâmbio de gostos musicais e títulos de documentários, e a cozinha sempre ativa com comida vegana deliciosíssima. Foi ali que conhecemos gofio, seitan e usos variados de batata, berinjela, pimentão, alho, etc. Nosso café da manhã também sofreu modificações. Já que estávamos com uma boa gama de frutas dos mercadinhos do bairro, preparávamos um prato com banana amassada, maçã verde ralada, gergelim tostado, uvas passa, coco ralado, sumo de limão, morango e quiuí picados, aveia, amendoim, flocos de milho e alguma outra coisa que tivesse a mais. Depois do tempo que passamos com aqueles exímios cozinheiros é que percebemos que carne de qualquer tipo e os derivados de produtos animais são não apenas uma besteira em termos alimentares como também uma tradição desnecessária e violenta.

Maldonado

Vista de Punta Colorada e Cerro Pan de Azúcar

Vista de Maldonado

Trilha no Arboretum Lussich

De lá, partimos no meio de uma tarde nublada para Piriápolis, tomando a rodovia Interbalneária. Ficamos hospedados via couchsurfing e na manhã seguinte bem cedo agarramos o caminho costeiro até Parque del Plata, depois de consertar a câmara e trocar o pneu da minha bicicleta. Fizemos esse trecho ora por estradinhas praianas, ora pela Interbalneária. É uma infinidade de praias tranquilas (naquela época) e pouco povoadas.

Pouso em Piriapolis

Freio mal regulado detona um bom pneu

Piriapolis

Indicação de término de ciclovia em Arroio de las Flores

No final do dia, depois de tentar sem sucesso encontrar a casa de dois contatos em Parque del Plata, pedimos pouso no corpo de bombeiros, que mais uma vez nos recebeu muito bem. Nos ofereceram o quarto do comandante que ficava separado do alojamento e depois do banho compartilhamos o jantar com os soldados – mas não a janta, por termos hábitos alimentares diferentes.

Parque del Plata

São 50 quilômetros até Montevideo, uma distância tranquila para se fazer em um dia. Porém, nos últimos 15km já estamos dentro da Capital, o que torna extremamente estressante a pedalada. Com a carga que levávamos, associada às diversas subidas e descidas, tendo que trafegar na pista preferencial para ônibus, a chegada em Montevideo foi um terrível pesadelo com o trânsito do meio dia.

gil

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Chuy a Maldonado

A passagem pela costa atlântica do Uruguai representou um segundo momento da viagem. Se no Brasil afinamos laços, reencontramos amigos e, na maior parte das vezes, paramos na casa de pessoas conhecidas ou indicadas por alguém, nesse trecho do Uruguai experimentamos algo mais próximo a um distanciamento social. Não que as pessoas de lá não fossem receptivas, muito pelo contrário, o que acontece é que o litoral uruguaio, salvo em época de temporada, é quase inabitado, e por isso passamos várias noites acampando, andando nas praias desertas e conhecendo balneários em que quase não se via pessoas circulando, apesar das muitas casas de veraneio.

Já em nossa primeira noite, depois de errar o caminho e parar em um pequeno agrupado de casas chamado de Palmares de La Coronilla, decidimos acampar em um cantinho simpático, visivelmente utilizado por outros viajantes antes de nós. Só havíamos acampado fora de uma propriedade particular uma vez até então, na Vila da Glória (SC). A comida ainda não estava pronta quando escutamos um barulho de motor que se aproximou trazendo dois homens montados em uma moto. Cumprimentamo-nos: eram caseiros de uma propriedade ali perto. Depois de conversarmos um pouco, nos mostraram a direção de sua casa, caso precisássemos de alguma coisa. Depois da visita simpática, sentimo-nos seguros para passar, na barraca, aquela noite e as seguintes.

Recuperando a noite mal dormida

Acampamento em Palmares de La Coronilla

Além dos balneários desabitados, uma amostra um pouco mais peculiar da ausência humana daquela região foram as construções abandonadas que encontramos no trecho de praia que liga Palmares de La Coronilla com La Coronilla. Eram trapiches, mansões e hotéis de luxo.  Pelos buracos dos vidros era possível ver antigos salões: só a estrutura lhes restava, com exceção de uma ou duas mesas e os restos de um piano. Andar por ali trazia algo de proibido e perigoso, não sei bem se pela podridão dos restos de material misturados à água da chuva, que não deixavam dúvidas de que há muito que ninguém botava os pés ali, ou pela imponência aristocrática que aquela construção ainda mantinha.

Construções de luxo abandonadas em La Coronilla

Hotel abandonado

La Coronilla

Balneario La Coronilla

O próximo ponto interessante para se falar aqui, é a Fortaleza Santa Teresa. Ela foi construída às pressas por portugueses em 1762, quando o tratado de Madrid, que pretendia trazer paz às colônias, foi anulado pelo subsequente Tratado de El Pardo. Apesar dos esforços, a fortaleza foi tomada, no ano seguinte, pelos espanhóis, que permaneceram ali durante 48 anos, até que os exércitos patriotas tomassem posse, iniciando um período de disputas que se estendeu até 1828, quando entrou em poder definitivo da República Oriental do Uruguai. Hoje a fortaleza fica num parque nacional, de mesmo nome, que é administrado pelo exército. Aquele foi o primeiro parque nacional de reflorestamento de eucaliptos que vimos (ainda veríamos muitos até o fim da viagem), mas, mesmo assim, tinha praias bonitas e o lugar todo era bem agradável. Foi uma pena que não pôde ter sido mais, pois nem eu e nem o gil passávamos muito bem (eu me recuperava de cólicas graves, ele se preparava para entrar em uma gripe) e por isso acabamos passando quase a tarde toda deitados na grama.

Fortaleza Santa Teresa

Dentro do forte, o paiol enterrado

Playa La Moza (Parque Nacional Santa Teresa)

No outro dia, o gil estava pior, e foi nesse astral que chegamos até Punta Del Diablo. Enquanto ele descansava no jardim de um hostel fora de funcionamento, fui atrás de algum outro lugar, que tivesse um banheiro e um fogão, para que pudéssemos passar alguns dias. Um rapaz para o qual pedi informação viu a que pé estávamos e ofereceu gentilmente a cabaña que alugava na temporada por um preço simbólico. Ali ficamos mais quatro dias, até que tudo voltasse ao normal, e somente no último é que fomos conhecer a praia.

Período de convalescença: grande ajuda do artesão Marcos

Punta del Diablo

A próxima cidade era Castillos. Apesar de ainda termos alguns suprimentos, nos programamos para fazer um lanche gordo quando chegássemos lá. Sabíamos que a cidade era pequena, mas também sabíamos que era habitada – diferente de suas vizinhas que beiravam o mar, Castillos não possuía qualquer atrativo natural para ser uma cidade turística, portanto subentendía-se que o pequeno aglomerado urbano deveria ser formado por moradores fixos. Quando chegamos lá, porém, encontramos todas as portas fechadas. “Será que hoje é algum feriado?”, ponderamos. Depois de muito procurar, encontramos uma padaria aberta e perguntamos à atendente. “Não, é que agora é hora da sesta. Quase todo o comércio fecha ao meio-dia e só reabre às quatro da tarde. Nós é que fazemos horário corrido” ela nos explicou. Apesar de nos parecer estranho, num primeiro momento, não demoramos a nos acostumar, afinal, dali para frente, todos os lugares, mesmo as cidades grandes, conservavam esse costume.

Depois dali agarramos uma estrada que passava por diversas praias. A via estava completamente vazia, e viramos em quase todas as entradas. As praias conservavam o mesmo arranjo visual das anteriores: mar aberto, algumas pedras, casinhas pequenas e vazias em todos os cantos. Vale destacar a praia de La Pedrera, que, diferente das anteriores que se constituíam mormente de planícies, contava com um enorme desfiladeiro de pedras que terminava na praia.

Balneario Esmeralda

Aguas Dulces: casas caindo no mar

Barra de Valizas

La Pedrera

Playa del Barco (La Pedrera)

Foi só quando tivemos que passar por Rocha que percebemos como é uma mentira quando dizem que o Uruguai é um país plano. É fato que não subimos nenhuma serra, mas, em compensação, enfrentamos intermináveis repechos – palavra uruguaia que eu traduziria como lombas, gíria gaúcha para subidas ou descidas repentinas e íngremes. E, para nossa infelicidade, eles continuariam por todo o país, especialmente no trecho depois de Montevideo. Certamente as pessoas que chamam aquilo de plano não foram para lá de bicicleta.

Ainda no mesmo dia, voltamos para o litoral, para a praia de José Ignácio. O lugar tem um quê de paradisíaco, pelo menos naquela época, que não estava cheio. Notava-se, também, que devia ser um lugar para pessoas ricas, porque, diferente das outras praias que havíamos passado, as casas ali eram grandes e visivelmente projetadas, apesar continuarem sendo construídas quase na beira no mar. Mesmo sendo um lugar aparentemente chique, o drama da ausência de banheiros continuava. Explico: desde que entramos no Uruguai eu tinha percebido como ninguém vê com bons olhos quando você pede para usar o banheiro em algum estabelecimento. Mesmo se você está em um restaurante, consumindo, o funcionário não deixa você usar, ou então diz que não tem nenhum ali. É até um pouco cômico, entrar em uma lojinha chique de José Ignácio e escutar a vendedora dizer, com naturalidade, para ir no mato que tem logo em frente. Mais engraçado ainda é imaginar as socialites do verão fazendo fila para usar a moita. Lógico, engraçado agora, que não estou apertada.

La Paloma

Sorrateiramente acampados no Parque Municipal Andresito

 

Plaza Independencia em Rocha

Balneario Jose Ignacio

M.

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Telegráfica de Curitiba

Pessoal,

A despeito do que possa parecer, o blog traz o relato de nossa viagem para a Argentina não como um diário, mas como um apanhado de nossas histórias e experiências. Além de trazer informações para cicloviajantes, vamos incentivando o pessoal empolgado com bicicleta ao soltar os relatos passados de tempos em tempos. No início da viagem, lá por agosto/2011, tentamos escrever durante a pedalada. Mas depois fomos percebendo que seria melhor um distanciamento da experiência para poder refletir melhor sobre o que foi acontecendo.

Assim, para nós, a viagem terminou em 19/11/11, na cidade de Necochea – AR. Porém, aqui no Cicloterras ela continua. E buscaremos vincular o que vivemos com os diversos aspectos políticos, geográficos, sociais e culturais que perpassam a vida de todos.

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Cruzando a fronteira para o Uruguay

A noite em Santa Vitória do Palmar passou rápido. Enquanto comíamos pela manhã, eu sentia a fadiga dos meus músculos como se tivesse apeado da bicicleta há poucos minutos. Ficamos muito tempo tomando café numa padaria, sem pressa alguma para retornar à estrada ou ao selim.

Eu já havia saído do Brasil algumas vezes e três delas foi para entrar no Uruguay. Mas essa era a primeira em que eu pensava no que realmente significava uma fronteira. Vínhamos observando na viagem as lentas mudanças que ocorriam nos sotaques, costumes, vegetação, clima. Era a cultura interagindo reciprocamente com a natureza. De repente, haveria uma descontinuidade nessa relação. Talvez as palavras “barreira” e “aduana” sejam, em conjunto, as que melhor definem essa divisão político-absurda:  barreira para as pessoas, aduana para mercadorias. Enquanto na Chuí brasileira os carros, roupas, casas eram de um jeito, na uruguaya era tudo diferente. A comida do mercado, o cachorro quente, os mendigos da praça; ritmos, andares, tudo era diferente e separado, virtualmente separado, pois era uma avenida movimentada que dizia onde operava uma ou outra cidadania. É claro que não havia nenhum impedimento na circulação (apesar de termos lido avisos em lojas dizendo: proibida venda para uruguayos e coisas parecidas) e é exatamente isso o mais absurdo! Se não há barreira física, como um rio ou cordilheira, por que acontece a separação cultural?!

Mais uma vez, a competição e essa política medieval atravancam o desenvolvimento sadio da sociedade das pessoas.

Uma da poucas coisas que não mudou foi a plantação de pinheiros. Uma ideia esterilizante que está em toda parte, sendo uma das melhores formas em que dinheiro dá em árvore. A concepção dos ricos continua primitiva: é preciso mais!

Antes de chegarmos na fronteira, tomamos à esquerda, numa estrada mal cuidada onde estavam instalando uma placa: Praia do Hermenegildo. A ideia era conhecer a praia e voltar para a BR, mas à medida que descíamos para o litoral, naquela estrada, com o sol cada vez mais acima, mudamos os planos e fomos torcendo para que a maré estivesse baixa.

Saindo do centrinho do Hermenegildo

O lugar parecia uma vila de pescadores na tentativa de se transformar em balneário turístico. Muitas casas, que foram construídas perto do mar, estão destruídas e hoje resta um monte de escombros pela areia. Naquela época, não havia ninguém. Se passaram dez pessoas, foi muito.

Por sorte, havia uma larga faixa de areia e assim atravessamos os 15km de praia até o balneário de Chuí. Aproveitando o calor, a água gelada e a inexistência de pessoas, tomamos um banho bem pelados. Só teve um momento de apuro quando apareceu no horizonte uma caminhonete que depois identificamos como sendo da polícia federal. Estragou o clima, mas já era hora mesmo de seguirmos.

praia do Hermenegildo

Nosso contato em Chuí não dava respostas e pelas cinco da tarde começamos a buscar um lugar para dormir. Desde a estrada do inferno, estávamos com uma carta na manga para este momento. Há algumas semanas, um caminhão da marinha emparelhou com nossas bicicletas e nos disseram que havia um alojamento para soldados no farol de Chuí. Bastava ir lá e pedir. Não tinha como o caseiro recusar.

Fomos e conversamos. É sempre a mesma coisa: pedimos para ficar, recusam, insistimos, a pessoa vai falar com outra, volta, conversamos mais, e aí nos acolhem com muita hospitalidade. No farol, usamos a cozinha, tomamos banho, dormimos em camas.

Barra do Chuí: fronteira

Av. Uruguay / av. Brasil: fronteira

Na manhã seguinte, tentamos passar a fronteira por uma pequena aduana uruguaya perto da praia. O oficial disse que deveríamos cruzar pela “ruta”. Fomos para a cidade de Chuí propriamente, passamos na polícia brasileira (sem necessidade), almoçamos na praça do lado uruguayo, enviamos algumas correspondências pelo correio brasileiro e rumamos para o Uruguay.

Haviam nos dito que era difícil passar com comida, principalmente frutas. Isso era preocupante, pois não sabíamos quanto tempo ficaríamos sem conseguir reabastecer a despensa. Apoiamos a bicicleta no meio fio e fomos apresentar os documentos. O trâmite foi rapidíssimo, sem revista alguma e ainda o policial se despediu dizendo:

– Hoje o vento tá bom, de nordeste. Aproveitem!

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Um longo caminho até Santa Vitória

Escutamos milhares de histórias aterrorizantes sobre o trecho até o Chuí, assim como aconteceu com a estrada do inferno. Do entroncamento com a BR-392 até Santa Vitória do Palmar, seriam quase 200 quilômetros sem nenhuma cidade e somente um posto de gasolina. Antes de finalmente entrarmos na rodovia que segue em direção ao Chuí, o Gil me convenceu de que, como logo sairíamos do Brasil, deveríamos nos despedir do arroz e feijão de uma maneira digna: se empanturrando.

Paramos em um vilarejo chamado Quinta, que faz parte da cidade de Rio Grande, e entramos em um restaurante. O bufê era bem variado e quase não tinha mesa para sentar de tanta gente. Pela estrutura do lugar, parecia um restaurante de estrada meio chique, daquele que as famílias de classe média param quando estão indo para a praia. Não foi preciso fazer quase nenhum esforço: quando disse que estávamos viajando de bicicleta (e que não éramos 20 pessoas), o dono do restaurante já me convidou para pegar um prato e comer à vontade. O fato de não comermos carne acaba ajudando muito nessas situações – quando não conseguimos comida de graça, ao menos ganhamos um bom desconto – mas, dessa vez, nem precisei desse argumento.

Bem alimentados, saímos do restaurante para seguir viagem. Encontramos duas pessoas subindo em uma moto no estacionamento, cujos acessórios declaravam que estavam em viagem. Puxamos assunto e perguntamos aonde iam. Seguiam em direção a Santa Vitória do Palmar, tinham família lá, e chegariam no fim do dia. Nos desejamos boa sorte mutuamente, e voltamos para a estrada.

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Das histórias que nos contaram, posso concordar que a estrada é realmente longa. Também não tem muita gente que mora por ali, mas existem sim casinhas esparsas ao longo do caminho. Sem água e mantimentos, é difícil de ficar. Agora, quanto à rodovia ser tediosa, disso tenho que discordar. É lógico que é uma reta só, daquelas que o olhar escapa lá na frente, mas esse foi um dos trechos em que a estrada era mais bonita. É uma região com muitos pássaros de grande porte  (como o joão grande, o colhereiro, o cisne de pescoço negro, o gavião) e, como a vegetação é sempre um banhado ou pasto, se pode vê-los muito bem. No fim da tarde, milhares de passarinhos bem pequenos e azulados (os azulões) voavam de um arbusto ao outro, atravessando a estrada.

No final do primeiro dia, decidimos dobrar numa entrada para uma lagoa. Estávamos procurando a estação ecológica do Taim, onde provavelmente conseguiríamos pouso. Aquela entrada não dava lá, mas, em compensação, nos levava à lindíssima margem da Lagoa Mirim. Apesar de nossa vontade, não podíamos esperar muito tempo ali, só tínhamos uma opção de pernoite por enquanto e não dava pra brincar. Deixamos a lagoa quando o sol começava a se por, e seguimos pela estrada até o Taim.

Os azulões faziam sombra como as flechas persas contra Leônidas

Lagoa Mirim

A estação ecológica do Taim é a sede da guarda florestal que protege o Parque Nacional do Taim, um pouco mais a frente. Em Rio Grande, já tinham nos falado que existiam habitações próprias para estudantes, que passavam a noite ali durante alguma pesquisa, por isso sabíamos que, muito provavelmente, conseguiríamos um lugar para dormir. Porém, logo que paramos com as bicicletas no portão da frente, vimos uma dezena de soldados do exército brasileiro, e aí meu otimismo fugiu bem rapidinho. Foi engraçada essa reação. Nunca tinha presenciado ao vivo um grupo de soldados – com exceção de, quem sabe, o desfile de Sete de Setembro de Porto Alegre – mas, mesmo assim, eu guardava um medo irracional daquelas figuras. Aliás, irracional não, associações da imagem do exército com a repressão e a violência extrema me parecem ideias bem racionais, construídas a partir de notícias, documentários, livros e conversas.

Para a nossa sorte, porém, apesar daqueles soldados estarem ali, não eram eles que cuidavam da estação do Taim. Assim como nós, eles estavam apenas de pernoite naquele lugar. Os seguranças responsáveis, por sua vez, foram muito simpáticos: primeiro nos indicaram um lugar para armar a barraca, depois nos disseram para ficar no dormitório mesmo, já que o feminino estaria vago aquela noite. Mesmo com a gentileza e hospitalidade desses senhores, ainda não me sentia à vontade caminhando fora do dormitório, por mais que os soldados estivessem, agora, reunidos em volta de uma churrasqueira, cantando e contando piadas, parecendo jovens comuns, não fosse o uniforme camuflado.

No outro dia, levantamos bem cedo e às 7h já estávamos na estrada. Os primeiros 17km percorridos naquela manhã, cortavam o Parque do Taim, e foram de uma beleza quase indescritível. O banhado se estendia em uma faixa razoável, dos dois lados da pista. Era possível observar, além dos pássaros que já víamos a alguns quilômetros, ratos de banhado e capivaras. Eles eram em grande quantidade e, a toda hora, cruzavam a pista de um lado para o outro. Por conta disso, apesar de não passarem muitos carros por ali, tinha uma quantidade razoável de animais atropelados nas beiradas da estrada. Isso me fez pensar que levaríamos quase uma hora para atravessar aquele trecho – já que, para nosso azar, o dia estava sem vento – se estivéssemos de carro, porém, seriam no máximo 15 minutos. Se não fossem as capivaras para atrapalhar o trânsito, certamente muitas pessoas que passavam por ali nem iam se dar conta de onde estavam. Além disso, os sons ali eram muito variados, cantos de aves e barulhos de insetos, coisa que já não se escuta direito de bicicleta em dias de vento, quem dirá atrás dos vidros de um automóvel com ar condicionado.

Depois do Taim, a estrada continuava bonita, mas sem a mesma magia. Tudo que não era pasto para gado, era plantação de pinus, por isso a paisagem variava de grandes propriedades a propriedades enormes. O tempo ia passando e a próxima cidade continuava longe, a possibilidade de que, talvez, não conseguíssemos chegar naquele dia começava a aparecer. Por conta disso, eu comecei a pedalar mais rápido, a querer parar menos. Fazia um cálculo mental da velocidade, quilometragem e número de horas restantes, daria tudo certo se não fôssemos devagar e se não parássemos mais de 10 minutos. O Gil, por outro lado, por não ter tanto problema em acampar em qualquer lugar e por estar com um calo nas nádegas, queria parar bastante e fazer alguns trechos a pé, para não forçar o machucado. Aos poucos, os dois foram se angustiando por querer que o outro fizesse o que esperava e por sentir essa pressão de volta. Numa altura do campeonato, resolvemos botar as ânsias pra fora e enfim decidimos uma estratégia: eu iria a 20km/h sem parar e o Gil iria a 25km/h, e aí podia fazer algumas paradas no meio do caminho.

Depois de algumas boas horas, mortos de fome e sono, chegamos na cidade de Santa Vitória do Palmar. Era quase 10 da noite, e nosso contato já estava vindo nos buscar. Quando ainda estávamos sentados esperando, dois homens se aproximaram, um deles me cumprimentou e depois ao Gil. Virou para o outro e murmurou “Viu só, eu disse que eles não iam me reconhecer”. Ficamos nos olhando sem entender direito o que estava acontecendo. Em seguida o homem explicou que ele era o motoqueiro que encontramos na Quinta, depois do almoço. Conversamos um pouco com ele e com seu pai, que o acompanhava, e finalmente seguimos para um abrigo, com as pernas um pouco bambas.

M.

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Passando por Pelotas

A vontade de visitar a cidade de Pelotas surgiu da mesma forma que Porto Alegre: soubemos de um espaço libertário e decidimos conhecer as pessoas e ideias que circulavam ali. Enquanto o desvio para a capital riograndense foi de 150km, Pelotas ficava apenas a 62km da praia de Cassino. Com um bom vento de leste-sudeste, levantamos da cama empolgados apesar do céu encoberto e do frio.

“Sempre pelo litoral.” Mesmo não tendo compromissos com datas, esta frase nos guiava. Rapidamente aprendemos que parar nas cidades, no mínimo, duplicava nossos gastos. Porém, sair da rota e passar em locais indicados também era tanto uma boa forma de conhecer coisas interessantes, quanto uma chance para conseguir contribuições e propulsionar ainda mais a viagem. Se, independente de uma rodovia específica, fôssemos de um espaço libertário para outro, sempre arranjaríamos uma maneira de equilibrar as contas. Por que, então, saímos tão poucas vezes de perto da costa? Acho que era a vontade de entrar logo no Uruguay. Sendo o primeiro novo país que visitaríamos, sempre faltava cada vez menos para ouvir outra língua, comer de outro pão, conhecer outra hospitalidade. Assim que, talvez não tão conscientemente, pedalamos poucas vezes fora do sentido norte-sul no Brasil.

Como sempre fazíamos contatos apressados, chegamos na cidade sem o endereço da casa 171. Uma garoa começou a cair enquanto cruzávamos a ponte sobre o rio Pelotas, engrossando, mais adiante, e nos forçando oportunamente a esperar numa padaria. Enquanto M. telefonava, fiquei observando os pingos caírem sobre os alforjes empoeirados. Longe de lavar as bolsas, a chuva acabava encardindo e desbotando a lona de que eram feitas. Mesmo sem as capas de chuva, sabíamos que nossos equipamentos estavam protegidos, pois havíamos forrado os alforjes com sacos de plástico resistente. Uma gota caía, escurecia a cor do tecido e impregnava o pó das várias estradas que percorremos, formando uma memória invisível do que passamos.

 

Sobre o rio Pelotas

Enfim, nossa chegada foi recebida por um chileno, Filipe, que veio ao Brasil com intenções de ficar. Em seguida, apareceram um colombiano e dois argentino. Na antiga casa açoriana, moravam oito pessoas, metade estrangeiros. Se era para falar outro idioma, não precisávamos ir tão longe. Percebemos que cada um falava um castellano diferente: o chileno era aberto e rápido; o colombiano, enrolado e soturno; os argentinos, animados e um pouco mais claros. Nossas conversas rolavam em torno da situação política de cada região natal deles, as possibilidades ciclísticas dos vários lugares que haviam passado, indicações de hospedagens, parques, rios, contatos de amigos em diferentes países da América do Sul.

Enquanto isso, todos esperavam pela comida. Passava das três da tarde e a fome já não cabia na barriga. Na verdade, achei aquela história esquisita. Sempre cozinhávamos juntos nesses espaços coletivistas e, daquela vez, aguardávamos o almoço chegar lá pelo meio da tarde. Quando chegou, só pude achar fantástico: um amigo desse pessoal trabalhava num restaurante vegetariano e orgânico. Todos os dias, após o serviço normal, ele trazia os restos daquela deliciosa comida para umas dez ou quinze pessoas. Nosso trabalho era comer tranquilos e lavar a louça. Se queríamos comida diferente, aquele também era o lugar.

Mais tarde, aproveitamos uma parada na garoa para andar pelas redondezas. Havíamos ouvido falar do Quadrado, um pequeno pier com esse formato, onde estacionavam canoas, barcos de pesca e pequenas lanchas. Ali se reunia o pessoal mais novo da cidade para conversar, beber e fumar. Enquanto andávamos tentando encontrar a rua certa, passamos por antigos galpões e fábricas, provavelmente da época do antigo porto, que hoje estavam cobertos de grafites. Eram Bombs, estêncils, grafites figurativos, pixo. Foi fácil perceber uma pequena rixa entre os alunos da faculdade de artes e os pintores da rua. Os estilos e certos atropelos davam esse indício.

 

Fruto do trabalho escravo

Mas assim que chegamos ao local desejado, a chuva voltou a cair e ficou mais forte. Corremos para um bar que havia ali pertinho. (Viajando com pouca roupa, temos sempre que nos proteger e evitar sujá-las.) A televisão estava ligada num programa de “jornalismo criminal”, os dois clientes discutiam com o dono as barbaridades anunciadas, o ruído da chuva atravessava o telhado de amianto e respingava através da parede de bambu. Aproveitamos para jogar uma partida de sinuca, o que não fazíamos há muito tempo, e conversamos tranquilos sobre a viagem e o próximo trecho, que seria pesado. Torcíamos para a chuva passar e entrar um belo vento de nordeste, para que a travessia do Taim fosse mais fácil.

Naquela noite, tivemos a oportunidade de presenciar uma varieté. Havia na casa uma sala com luzes coloridas que servia de palco, onde se apresentaram vários artistas, entre malabares e músicos. Esse evento, aberto ao público, além de reunir um pessoal interessado, também servia para arrecadar contribuições para reformar a velha casa. Na época, escrevi num email o seguinte: “O local é um pouco bagunçado, porém bastante colorido. Claro que é fruto da casa ser velha e reconstruída com material reciclado (ripas, portas, móveis, muita coisa encontrada na rua). Essas casas antigas são sempre compridas, coladas com as vizinhas, com janelas apenas para a rua e para algum jardim interno. Isso faz com que sejam locais pouco iluminados e bastante úmidos. A altura do pé direito aumenta a sensação de que falta alguma coisa. Aqui, em especial, estão tentando aproveitar o forro para construir novos quartos. Só que o telhado é ruim e tem muitas goteiras. Quase todas as janelas têm vidros quebrados e o vento encanado é arrepiante. Combinado com a umidade e a pouca iluminação, daria uma boa casa mal-assombrada – não fosse o espírito anarquista, a fraternidade e a intensa movimentação e atividades que acontecem todos os dias.”

malabares

A história de Pelotas, como toda a invasão europeia na América, é cruel e literalmente sanguinária. A cidade retirou sua riqueza das grandes fazendas de charque que se instalaram na região. Eram enormes galpões abertos, onde a carne salgada ficava pendurada para desidratação. O sangue escorria para os rios tornando-os vermelhos, enquanto o ambiente insalubre obrigava uma grande distância do centro urbano. Os animais eram gados xucros que haviam se soltado quando os jesuítas foram expulsos da região. Estima-se uma matança de 400 mil cabeças por ano! (wiki-LINK) Além disso, para essas fazendas, foram trazidos negros que trabalhavam como escravos. Por isso, ainda hoje, certas desigualdades sociais continuam esfolando muita gente e constrangendo o poder local.

Na casa 171, foi onde aprendemos a fazer serigrafia, vimos o documentário Ciclovida, e também trocamos informações sobre compostagem, fotografia, software livre e coletivismo.

Esquentando as pernas no fogão à lenha

 gil

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