Como tudo começou: 5 anos depois

Há uns meses, pediram-me para escrever sobre minha pedalada até Argentina. Fiquei intrigado com a dificuldade em começar esse texto. Já dei pelo menos umas dez oficinas sobre o assunto, mesmo antes da viagem, mas na hora de colocar um pouco dessa experiência no papel parece que a falta de urgência – diferente de quando se está falando para um público – e minha necessidade de sistematização tornam tudo muito trabalhoso. Mais curioso ainda é que essas mesmas características foram a base do nosso estilo de viagem: não tínhamos data para voltar e havíamos feito um ótimo planejamento. Bom, acho que esse pode ser um começo.

Mas antes de entrar nos detalhes de como resolvemos a questão do tempo e do planejamento – e de tudo que se desdobrou a partir dali –, sinto a necessidade de comentar sobre o valor que nos serviu, e ainda serve, de norte: a liberdade. Não falo aqui dessa coisa vazia e retórica que a parte mais conservadora da população vem usando abusivamente para “resolver” suas diferenças de opinião política e exercitar um ódio infantil. Liberdade e desprezo são duas palavras que não combinam nem um pouco. O que nos animava era uma busca por responsabilidade pelas nossas escolhas e um senso amplo de comunidade, que muitas vezes leva o nome de solidariedade. Para que pudéssemos viajar tranquilos, tínhamos que confiar nas pessoas, aceitar suas oferendas (que são muito diferentes de ofertas) e principalmente aprender a pedir ajuda. Pensar a liberdade fora disso é apenas exercer o privilégio de cada um, coisa que não nos interessava, e continua não interessando, pois, já se sabe há muito tempo, não melhoraria a nossa vida e muito menos a das outras pessoas. Assim, era pensando na liberdade como uma série de escolhas responsáveis dentro de um leque de opções sempre melhores quando aberto em comunidade que passamos a ver essa viagem de bicicleta de maneira diferente. E foi justamente por virmos construindo por anos esse princípio que mudar completamente de vida foi muito mais fácil.

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Mas não simples, e é aí que entra nossa preparação e disposição.

Minha primeira viagem de bicicleta foi em 2007, indo de Florianópolis à Praia da Pinheira, em Santa Catarina. Até hoje não sei a quilometragem do trajeto, mas devo ter percorrido menos de 100km (ida e volta) e acabei retornando em dois dias com medo do frio e da chuva. Já tinha ouvido alguns boatos sobre longas pedaladas, mas foi apenas em 2010, através de uma lista de e-mails sobre transporte urbano em Curitiba, que conheci uma história “de verdade”. Um casal de franceses tirou um ano para viajar pela França e, depois de algumas mudanças de planos, deram a volta ao mundo de bicicleta e voltaram para casa após 14 anos com uma filha. A gente sempre faz uma piadinha pra relaxar a tensão que uma experiência forte nos causa e foi aí que eu disse: “vamos viajar também?”. Minha amiga respondeu um “sim” também descontraído, mas depois daqueles poucos segundos que nossos sorrisos se mantiveram no ar tudo já estava claro e em andamento.

“Mas e o trabalho, a universidade?” Ao invés dessas perguntas servirem de desculpa para não fazermos o que queríamos, as respostas a elas foram nossos primeiros passos. O medo de ficar “defasado”, de perder os acontecimentos aqui, de não encontrar mais aquele cotidiano conhecido e seguro não deixou de existir, mas foi mais fraco que a alegria da descoberta que estava por vir, essa empolgação de estar se arriscando de forma consciente. Assim, pensamos que um ano seria suficiente para arrumar essa “burocracia” e preparar nossos equipamentos. Um ano também seria o tempo certo para as coisas se encaixassem: sairíamos no próximo inverno, dando-nos tempo suficiente para que chegássemos no extremo sul da Argentina no outro verão.

Dessas considerações sobre as estações do ano, sobre a viagem a longo prazo, costuma aparecer uma pergunta mais pragmática: “quantos quilômetros vocês faziam por dia?” Não existe uma resposta para isso. Teve um dia que pedalamos 25km e outro que foram 160km. Mas enquanto estávamos em casa, jogados num colchão na sala mirabolando sobre a viagem, a conta que nos pareceu sensata foi de 60km por dia, com um dia de descanso a cada dois de estrada. Ou seja, 40km de pedalada constante. Na prática, dos quatro meses que ficamos viajando, apenas metade foi em “movimento”. Dois meses foram usados passeando por cidades, visitando pessoas, arrumando as coisas.

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Outra pergunta recorrente é sobre a grana. Quanto seria necessário? Teríamos alguma forma de conseguir dinheiro durante o caminho? O primeiro ponto, no nosso caso, era bem difícil de saber. Escolhemos Ushuaia como destino, mas na verdade essa seria apenas uma das várias paradas. No mínimo, teríamos que voltar de lá. Nas nossas contas, isso já dava um ano. E ao nos depararmos com essa “complicação”, o que fazer depois da cidade do fim do mundo, logo arranjamos a solução mais lógica: pedalaremos até o Alaska!

Como disse antes, deitados no chão, no conforto de casa, a imaginação ia longe. Porém, independente de ser um delírio ou não (afinal, há vários relatos de gente que pedalou este trajeto), o que estava às vistas era o nosso desprendimento, nos sentíamos livres para sonhar dessa forma. E assim, ao invés de pensar numa quantia total para a viagem, pois não havia uma viagem fechada, pensamos numa hipótese de gasto diário e fizemos uma lista de atividades que poderiam nos render uns trocados. Nosso chute foi de 15 reais por dia para cada um, o que, em seis meses, por exemplo, daria 2700 reais.

“Mas 15 reais é um absurdo! Ninguém vive com isso.” Pois é, ser realista num mundo de competição faz com que a gente queira resolver tudo sozinho. Nossa estimativa tinha como pressuposto aquela liberdade que descrevi mais acima, que implicava que teríamos ajuda. Isso pode ser traduzido como ganhar abrigo e comida. No final, ela se provou bastante razoável pois não tivemos que pagar uma única vez por hospedagem (em 120 dias!) e os gastos por pessoa ficaram em torno de 1700 reais, incluindo as passagens de ônibus de volta lá do meio da Argentina (quanto custa mesmo viver um mês parado na cidade?). O que não significa que naqueles quatro meses não tivemos que desembolsar mais do que essa quantia. E aqui entra a maneira que encontramos para conseguir alguma grana: as conversas sobre viagem de bicicleta. Eram encontros preparados nas cidades maiores que juntavam gente interessada em sair pedalando pelo mundo, e nesses momentos, estando cara a cara com as pessoas, é que pedíamos dinheiro para seguir viajando.

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Isso para falar das dificuldades com relação ao tempo. Agora sobre nossa preparação, sobre o que pensamos para o “durante a viagem”.

Pode parecer um contrassenso essa história de uma liberdade que depende dos outros. Espero ter mostrado que não. Mas, de fato, essa dependência não era uma dependência. É bastante óbvio que também tínhamos que estar preparados para nos virar sozinhos. Mas isso estava ligado apenas a uma parte da viagem, a outra, que poderia chamar de “aberta”, descrevi acima. Então, o que era nossa, e apenas nossa, responsabilidade para termos uma boa viagem? Pensamos em dois eixos: o transporte e a casa. Gostaríamos de ter bicicletas boas e duráveis, então compramos peças robustas e de fácil reposição. Precisávamos de bagageiros, pegamos os mais simples e baratos; de alforjes, costuramos os nossos com lona colorida; de proteção para chuva, arranjamos ponchos e sacos plásticos resistentes. A parte da casa, que é diferente de uma habitação, deveria ter apenas o indispensável. Cada bolsa de alforje foi chamada com o nome de um cômodo: tinha a oficina, com as ferramentas e algumas poucas peças para troca (pastilhas de freio, duas câmaras e uma corrente); a cozinha, com talheres, fogareiro, pratos, canecas, pano para louça; a dispensa, uma caixa rígida para evitar de amassar as frutas e pães, com nossa comida e vários temperos; a biblioteca (!), com alguns livros, bloco de notas, canetas, postais e cartazes que conseguíamos durante a viagem; e o quarto, com nossas roupas, colchonete, isolante térmico e a barraca.

Além de preparar os equipamentos, fizemos um “estudo” rigoroso do trajeto. Escolhemos ir apenas pelo litoral e, ao traçar a rota, víamos nas imagens de satélite tudo quanto era construção, fazenda, bifurcação ou algo que servisse de marco (como antenas de telefonia). Anotamos as distâncias entre um ponto e outro e assim, com uma lista daquilo que estava no nosso caminho, podíamos facilmente escolher se pedalávamos mais um pouco ou se ficávamos. Isso era bem importante para nós, pois umas duas horas antes de escurecer começávamos a buscar onde passar a noite. Queríamos sempre lugares que nos parecessem seguros, de preferência com possibilidade de conseguir comida e água por perto. Tendo nossa lista de marcos com as quilometragens entre cada ponto, era muito tranquilo decidir avançar ou até mesmo voltar um trecho. Mas a principal vantagem desse tipo de planejamento rigoroso é não estar preso a destinos fixos. Foi uma forma de organização que nos deixava bem livres para escolher quanto pedalar por dia e, a cada vez, onde ficar.

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1 comentário

Arquivado em Reflexões

Uma resposta para “Como tudo começou: 5 anos depois

  1. gostei. estava com saudades de lembrar desta viagem.

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