Arquivo do mês: abril 2012

Passando por Maldonado e pela costa de Canelones

Desde que olhamos o mapa do Uruguay, antes de sair de casa, nos perguntamos se havia um caminho de La Paloma até José Ignácio pelo litoral, pois tudo indicava que a Ruta 10 seguia lindamente a costa. Lá na fronteira, a moça da casa de informações turísticas de Chuy disse de cara: no. Assim, fomos de La Paloma direto para Rocha, passando por inúmeras lombas, o que, mesmo sob um sol fortíssimo, nos abriu a criatividade para compor duas letras de música. A cada parada no final de uma subida eu pegava meu bloquinho e anotava, desviando as gotas de suor do papel, um par de versos. Quem sabe mais pra frente coloco uma delas gravada aqui.

A Ruta 9, que passa pela capital do departamento,  acompanha paralelamente a 10, porém, além do relevo acidentado, o trânsito era mais intenso. Em algum momento, deveríamos passar a Laguna Garzón e então daria para voltar para o litoral. Mesmo tendo várias entradas com placas confusas conseguimos encontrar a estradinha de terra (cheia de condomínios em construção) que levava ao Balneário de José Ignácio.

Nos breves momentos que estivemos naquele lindo lugar, descobrimos que o govierno queria construir uma ponte que desse continuidade à Ruta 10, mas que iria fazer um enorme estrago nas redondezas da tal laguna. O plano ia mais longe: duplicar a rodovia por cima da duna até Punta del Este, ideia que traria não apenas o progresso para os uruguayos como para a fauna, a flora, a praia e o mar (tudo isso já afetado pelo Terminal da Ancap, agência nacional de derivados de petróleo). Passamos por esse trecho com o sol se pondo, atravessando o Balneário Buenos Aires, Manantiales, La Barra, todas regiões com aquele chique desperdício de lojas e mansões. Entramos em Maldonado pelo bairro de El placer, lugar um pouco sinistro de noite, mas que nos levava diretamente para o centro onde encontraríamos nossos amigos, Camila e Gonzalo.

Foram quatro dias de chuva que passamos numa casinha da periferia de Maldonado. O tempo ruim não impediu que fôssemos conhecer um pouquinho de Punta del Este, observando aquela estranha cidade de cima de uma antiga caixa d’água da OSE (cia de água do estado).  Também não impediu de conhecermos de bicicleta o Arboretum Lussich, um parque onde fizemos várias trilhas e pudemos ver quase todo o departamento, Punta Colorada, Cerro Pan de Azúcar, Portezuelo, Chihuahua, Laguna del Sauce, Punta Ballena, Maldonado e Punta del Este. O que a chuva e o friozinho estimularam foram as conversas em casa, o intercâmbio de gostos musicais e títulos de documentários, e a cozinha sempre ativa com comida vegana deliciosíssima. Foi ali que conhecemos gofio, seitan e usos variados de batata, berinjela, pimentão, alho, etc. Nosso café da manhã também sofreu modificações. Já que estávamos com uma boa gama de frutas dos mercadinhos do bairro, preparávamos um prato com banana amassada, maçã verde ralada, gergelim tostado, uvas passa, coco ralado, sumo de limão, morango e quiuí picados, aveia, amendoim, flocos de milho e alguma outra coisa que tivesse a mais. Depois do tempo que passamos com aqueles exímios cozinheiros é que percebemos que carne de qualquer tipo e os derivados de produtos animais são não apenas uma besteira em termos alimentares como também uma tradição desnecessária e violenta.

Maldonado

Vista de Punta Colorada e Cerro Pan de Azúcar

Vista de Maldonado

Trilha no Arboretum Lussich

De lá, partimos no meio de uma tarde nublada para Piriápolis, tomando a rodovia Interbalneária. Ficamos hospedados via couchsurfing e na manhã seguinte bem cedo agarramos o caminho costeiro até Parque del Plata, depois de consertar a câmara e trocar o pneu da minha bicicleta. Fizemos esse trecho ora por estradinhas praianas, ora pela Interbalneária. É uma infinidade de praias tranquilas (naquela época) e pouco povoadas.

Pouso em Piriapolis

Freio mal regulado detona um bom pneu

Piriapolis

Indicação de término de ciclovia em Arroio de las Flores

No final do dia, depois de tentar sem sucesso encontrar a casa de dois contatos em Parque del Plata, pedimos pouso no corpo de bombeiros, que mais uma vez nos recebeu muito bem. Nos ofereceram o quarto do comandante que ficava separado do alojamento e depois do banho compartilhamos o jantar com os soldados – mas não a janta, por termos hábitos alimentares diferentes.

Parque del Plata

São 50 quilômetros até Montevideo, uma distância tranquila para se fazer em um dia. Porém, nos últimos 15km já estamos dentro da Capital, o que torna extremamente estressante a pedalada. Com a carga que levávamos, associada às diversas subidas e descidas, tendo que trafegar na pista preferencial para ônibus, a chegada em Montevideo foi um terrível pesadelo com o trânsito do meio dia.

gil

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