Chuy a Maldonado

A passagem pela costa atlântica do Uruguai representou um segundo momento da viagem. Se no Brasil afinamos laços, reencontramos amigos e, na maior parte das vezes, paramos na casa de pessoas conhecidas ou indicadas por alguém, nesse trecho do Uruguai experimentamos algo mais próximo a um distanciamento social. Não que as pessoas de lá não fossem receptivas, muito pelo contrário, o que acontece é que o litoral uruguaio, salvo em época de temporada, é quase inabitado, e por isso passamos várias noites acampando, andando nas praias desertas e conhecendo balneários em que quase não se via pessoas circulando, apesar das muitas casas de veraneio.

Já em nossa primeira noite, depois de errar o caminho e parar em um pequeno agrupado de casas chamado de Palmares de La Coronilla, decidimos acampar em um cantinho simpático, visivelmente utilizado por outros viajantes antes de nós. Só havíamos acampado fora de uma propriedade particular uma vez até então, na Vila da Glória (SC). A comida ainda não estava pronta quando escutamos um barulho de motor que se aproximou trazendo dois homens montados em uma moto. Cumprimentamo-nos: eram caseiros de uma propriedade ali perto. Depois de conversarmos um pouco, nos mostraram a direção de sua casa, caso precisássemos de alguma coisa. Depois da visita simpática, sentimo-nos seguros para passar, na barraca, aquela noite e as seguintes.

Recuperando a noite mal dormida

Acampamento em Palmares de La Coronilla

Além dos balneários desabitados, uma amostra um pouco mais peculiar da ausência humana daquela região foram as construções abandonadas que encontramos no trecho de praia que liga Palmares de La Coronilla com La Coronilla. Eram trapiches, mansões e hotéis de luxo.  Pelos buracos dos vidros era possível ver antigos salões: só a estrutura lhes restava, com exceção de uma ou duas mesas e os restos de um piano. Andar por ali trazia algo de proibido e perigoso, não sei bem se pela podridão dos restos de material misturados à água da chuva, que não deixavam dúvidas de que há muito que ninguém botava os pés ali, ou pela imponência aristocrática que aquela construção ainda mantinha.

Construções de luxo abandonadas em La Coronilla

Hotel abandonado

La Coronilla

Balneario La Coronilla

O próximo ponto interessante para se falar aqui, é a Fortaleza Santa Teresa. Ela foi construída às pressas por portugueses em 1762, quando o tratado de Madrid, que pretendia trazer paz às colônias, foi anulado pelo subsequente Tratado de El Pardo. Apesar dos esforços, a fortaleza foi tomada, no ano seguinte, pelos espanhóis, que permaneceram ali durante 48 anos, até que os exércitos patriotas tomassem posse, iniciando um período de disputas que se estendeu até 1828, quando entrou em poder definitivo da República Oriental do Uruguai. Hoje a fortaleza fica num parque nacional, de mesmo nome, que é administrado pelo exército. Aquele foi o primeiro parque nacional de reflorestamento de eucaliptos que vimos (ainda veríamos muitos até o fim da viagem), mas, mesmo assim, tinha praias bonitas e o lugar todo era bem agradável. Foi uma pena que não pôde ter sido mais, pois nem eu e nem o gil passávamos muito bem (eu me recuperava de cólicas graves, ele se preparava para entrar em uma gripe) e por isso acabamos passando quase a tarde toda deitados na grama.

Fortaleza Santa Teresa

Dentro do forte, o paiol enterrado

Playa La Moza (Parque Nacional Santa Teresa)

No outro dia, o gil estava pior, e foi nesse astral que chegamos até Punta Del Diablo. Enquanto ele descansava no jardim de um hostel fora de funcionamento, fui atrás de algum outro lugar, que tivesse um banheiro e um fogão, para que pudéssemos passar alguns dias. Um rapaz para o qual pedi informação viu a que pé estávamos e ofereceu gentilmente a cabaña que alugava na temporada por um preço simbólico. Ali ficamos mais quatro dias, até que tudo voltasse ao normal, e somente no último é que fomos conhecer a praia.

Período de convalescença: grande ajuda do artesão Marcos

Punta del Diablo

A próxima cidade era Castillos. Apesar de ainda termos alguns suprimentos, nos programamos para fazer um lanche gordo quando chegássemos lá. Sabíamos que a cidade era pequena, mas também sabíamos que era habitada – diferente de suas vizinhas que beiravam o mar, Castillos não possuía qualquer atrativo natural para ser uma cidade turística, portanto subentendía-se que o pequeno aglomerado urbano deveria ser formado por moradores fixos. Quando chegamos lá, porém, encontramos todas as portas fechadas. “Será que hoje é algum feriado?”, ponderamos. Depois de muito procurar, encontramos uma padaria aberta e perguntamos à atendente. “Não, é que agora é hora da sesta. Quase todo o comércio fecha ao meio-dia e só reabre às quatro da tarde. Nós é que fazemos horário corrido” ela nos explicou. Apesar de nos parecer estranho, num primeiro momento, não demoramos a nos acostumar, afinal, dali para frente, todos os lugares, mesmo as cidades grandes, conservavam esse costume.

Depois dali agarramos uma estrada que passava por diversas praias. A via estava completamente vazia, e viramos em quase todas as entradas. As praias conservavam o mesmo arranjo visual das anteriores: mar aberto, algumas pedras, casinhas pequenas e vazias em todos os cantos. Vale destacar a praia de La Pedrera, que, diferente das anteriores que se constituíam mormente de planícies, contava com um enorme desfiladeiro de pedras que terminava na praia.

Balneario Esmeralda

Aguas Dulces: casas caindo no mar

Barra de Valizas

La Pedrera

Playa del Barco (La Pedrera)

Foi só quando tivemos que passar por Rocha que percebemos como é uma mentira quando dizem que o Uruguai é um país plano. É fato que não subimos nenhuma serra, mas, em compensação, enfrentamos intermináveis repechos – palavra uruguaia que eu traduziria como lombas, gíria gaúcha para subidas ou descidas repentinas e íngremes. E, para nossa infelicidade, eles continuariam por todo o país, especialmente no trecho depois de Montevideo. Certamente as pessoas que chamam aquilo de plano não foram para lá de bicicleta.

Ainda no mesmo dia, voltamos para o litoral, para a praia de José Ignácio. O lugar tem um quê de paradisíaco, pelo menos naquela época, que não estava cheio. Notava-se, também, que devia ser um lugar para pessoas ricas, porque, diferente das outras praias que havíamos passado, as casas ali eram grandes e visivelmente projetadas, apesar continuarem sendo construídas quase na beira no mar. Mesmo sendo um lugar aparentemente chique, o drama da ausência de banheiros continuava. Explico: desde que entramos no Uruguai eu tinha percebido como ninguém vê com bons olhos quando você pede para usar o banheiro em algum estabelecimento. Mesmo se você está em um restaurante, consumindo, o funcionário não deixa você usar, ou então diz que não tem nenhum ali. É até um pouco cômico, entrar em uma lojinha chique de José Ignácio e escutar a vendedora dizer, com naturalidade, para ir no mato que tem logo em frente. Mais engraçado ainda é imaginar as socialites do verão fazendo fila para usar a moita. Lógico, engraçado agora, que não estou apertada.

La Paloma

Sorrateiramente acampados no Parque Municipal Andresito

 

Plaza Independencia em Rocha

Balneario Jose Ignacio

M.

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5 Comentários

Arquivado em Relatos

5 Respostas para “Chuy a Maldonado

  1. Buenos amigos,

    Que bom poder rever os lugares em que estive em 2011.

    Parabéns e boa viagem

    Se precisarem de contatos em Maldonado e só me avisar.

  2. Luisaa, Gil!!!! Nos hemos preguntado por ustedes!! Como siguen!? Como va ese viaje!? Mantengamonos en contacto!! Abrazo grande desde Maldonado, Camila y Gonza!! :)

  3. Vinicius

    Em quanto tempo vocês fizeram a viagem, e quantos km no total?!
    Abraço!!

    • hyx

      Olá Vinícius,
      De curitiba a Necochea-AR foram mais ou menos 3100km e levamos 4 meses para chegar lá (dos quais, metade ficamos parados conhecendo os lugares).

  4. Érica

    Olá,
    Estamos pensando em fazer algo parecido, e gostaríamos muito de trocar e-mail com vocês. Estamos saindo de SP agora no fim de Dezembro.

    Obrigada

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