Arquivo do mês: janeiro 2012

Cruzando a fronteira para o Uruguay

A noite em Santa Vitória do Palmar passou rápido. Enquanto comíamos pela manhã, eu sentia a fadiga dos meus músculos como se tivesse apeado da bicicleta há poucos minutos. Ficamos muito tempo tomando café numa padaria, sem pressa alguma para retornar à estrada ou ao selim.

Eu já havia saído do Brasil algumas vezes e três delas foi para entrar no Uruguay. Mas essa era a primeira em que eu pensava no que realmente significava uma fronteira. Vínhamos observando na viagem as lentas mudanças que ocorriam nos sotaques, costumes, vegetação, clima. Era a cultura interagindo reciprocamente com a natureza. De repente, haveria uma descontinuidade nessa relação. Talvez as palavras “barreira” e “aduana” sejam, em conjunto, as que melhor definem essa divisão político-absurda:  barreira para as pessoas, aduana para mercadorias. Enquanto na Chuí brasileira os carros, roupas, casas eram de um jeito, na uruguaya era tudo diferente. A comida do mercado, o cachorro quente, os mendigos da praça; ritmos, andares, tudo era diferente e separado, virtualmente separado, pois era uma avenida movimentada que dizia onde operava uma ou outra cidadania. É claro que não havia nenhum impedimento na circulação (apesar de termos lido avisos em lojas dizendo: proibida venda para uruguayos e coisas parecidas) e é exatamente isso o mais absurdo! Se não há barreira física, como um rio ou cordilheira, por que acontece a separação cultural?!

Mais uma vez, a competição e essa política medieval atravancam o desenvolvimento sadio da sociedade das pessoas.

Uma da poucas coisas que não mudou foi a plantação de pinheiros. Uma ideia esterilizante que está em toda parte, sendo uma das melhores formas em que dinheiro dá em árvore. A concepção dos ricos continua primitiva: é preciso mais!

Antes de chegarmos na fronteira, tomamos à esquerda, numa estrada mal cuidada onde estavam instalando uma placa: Praia do Hermenegildo. A ideia era conhecer a praia e voltar para a BR, mas à medida que descíamos para o litoral, naquela estrada, com o sol cada vez mais acima, mudamos os planos e fomos torcendo para que a maré estivesse baixa.

Saindo do centrinho do Hermenegildo

O lugar parecia uma vila de pescadores na tentativa de se transformar em balneário turístico. Muitas casas, que foram construídas perto do mar, estão destruídas e hoje resta um monte de escombros pela areia. Naquela época, não havia ninguém. Se passaram dez pessoas, foi muito.

Por sorte, havia uma larga faixa de areia e assim atravessamos os 15km de praia até o balneário de Chuí. Aproveitando o calor, a água gelada e a inexistência de pessoas, tomamos um banho bem pelados. Só teve um momento de apuro quando apareceu no horizonte uma caminhonete que depois identificamos como sendo da polícia federal. Estragou o clima, mas já era hora mesmo de seguirmos.

praia do Hermenegildo

Nosso contato em Chuí não dava respostas e pelas cinco da tarde começamos a buscar um lugar para dormir. Desde a estrada do inferno, estávamos com uma carta na manga para este momento. Há algumas semanas, um caminhão da marinha emparelhou com nossas bicicletas e nos disseram que havia um alojamento para soldados no farol de Chuí. Bastava ir lá e pedir. Não tinha como o caseiro recusar.

Fomos e conversamos. É sempre a mesma coisa: pedimos para ficar, recusam, insistimos, a pessoa vai falar com outra, volta, conversamos mais, e aí nos acolhem com muita hospitalidade. No farol, usamos a cozinha, tomamos banho, dormimos em camas.

Barra do Chuí: fronteira

Av. Uruguay / av. Brasil: fronteira

Na manhã seguinte, tentamos passar a fronteira por uma pequena aduana uruguaya perto da praia. O oficial disse que deveríamos cruzar pela “ruta”. Fomos para a cidade de Chuí propriamente, passamos na polícia brasileira (sem necessidade), almoçamos na praça do lado uruguayo, enviamos algumas correspondências pelo correio brasileiro e rumamos para o Uruguay.

Haviam nos dito que era difícil passar com comida, principalmente frutas. Isso era preocupante, pois não sabíamos quanto tempo ficaríamos sem conseguir reabastecer a despensa. Apoiamos a bicicleta no meio fio e fomos apresentar os documentos. O trâmite foi rapidíssimo, sem revista alguma e ainda o policial se despediu dizendo:

– Hoje o vento tá bom, de nordeste. Aproveitem!

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Um longo caminho até Santa Vitória

Escutamos milhares de histórias aterrorizantes sobre o trecho até o Chuí, assim como aconteceu com a estrada do inferno. Do entroncamento com a BR-392 até Santa Vitória do Palmar, seriam quase 200 quilômetros sem nenhuma cidade e somente um posto de gasolina. Antes de finalmente entrarmos na rodovia que segue em direção ao Chuí, o Gil me convenceu de que, como logo sairíamos do Brasil, deveríamos nos despedir do arroz e feijão de uma maneira digna: se empanturrando.

Paramos em um vilarejo chamado Quinta, que faz parte da cidade de Rio Grande, e entramos em um restaurante. O bufê era bem variado e quase não tinha mesa para sentar de tanta gente. Pela estrutura do lugar, parecia um restaurante de estrada meio chique, daquele que as famílias de classe média param quando estão indo para a praia. Não foi preciso fazer quase nenhum esforço: quando disse que estávamos viajando de bicicleta (e que não éramos 20 pessoas), o dono do restaurante já me convidou para pegar um prato e comer à vontade. O fato de não comermos carne acaba ajudando muito nessas situações – quando não conseguimos comida de graça, ao menos ganhamos um bom desconto – mas, dessa vez, nem precisei desse argumento.

Bem alimentados, saímos do restaurante para seguir viagem. Encontramos duas pessoas subindo em uma moto no estacionamento, cujos acessórios declaravam que estavam em viagem. Puxamos assunto e perguntamos aonde iam. Seguiam em direção a Santa Vitória do Palmar, tinham família lá, e chegariam no fim do dia. Nos desejamos boa sorte mutuamente, e voltamos para a estrada.

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Das histórias que nos contaram, posso concordar que a estrada é realmente longa. Também não tem muita gente que mora por ali, mas existem sim casinhas esparsas ao longo do caminho. Sem água e mantimentos, é difícil de ficar. Agora, quanto à rodovia ser tediosa, disso tenho que discordar. É lógico que é uma reta só, daquelas que o olhar escapa lá na frente, mas esse foi um dos trechos em que a estrada era mais bonita. É uma região com muitos pássaros de grande porte  (como o joão grande, o colhereiro, o cisne de pescoço negro, o gavião) e, como a vegetação é sempre um banhado ou pasto, se pode vê-los muito bem. No fim da tarde, milhares de passarinhos bem pequenos e azulados (os azulões) voavam de um arbusto ao outro, atravessando a estrada.

No final do primeiro dia, decidimos dobrar numa entrada para uma lagoa. Estávamos procurando a estação ecológica do Taim, onde provavelmente conseguiríamos pouso. Aquela entrada não dava lá, mas, em compensação, nos levava à lindíssima margem da Lagoa Mirim. Apesar de nossa vontade, não podíamos esperar muito tempo ali, só tínhamos uma opção de pernoite por enquanto e não dava pra brincar. Deixamos a lagoa quando o sol começava a se por, e seguimos pela estrada até o Taim.

Os azulões faziam sombra como as flechas persas contra Leônidas

Lagoa Mirim

A estação ecológica do Taim é a sede da guarda florestal que protege o Parque Nacional do Taim, um pouco mais a frente. Em Rio Grande, já tinham nos falado que existiam habitações próprias para estudantes, que passavam a noite ali durante alguma pesquisa, por isso sabíamos que, muito provavelmente, conseguiríamos um lugar para dormir. Porém, logo que paramos com as bicicletas no portão da frente, vimos uma dezena de soldados do exército brasileiro, e aí meu otimismo fugiu bem rapidinho. Foi engraçada essa reação. Nunca tinha presenciado ao vivo um grupo de soldados – com exceção de, quem sabe, o desfile de Sete de Setembro de Porto Alegre – mas, mesmo assim, eu guardava um medo irracional daquelas figuras. Aliás, irracional não, associações da imagem do exército com a repressão e a violência extrema me parecem ideias bem racionais, construídas a partir de notícias, documentários, livros e conversas.

Para a nossa sorte, porém, apesar daqueles soldados estarem ali, não eram eles que cuidavam da estação do Taim. Assim como nós, eles estavam apenas de pernoite naquele lugar. Os seguranças responsáveis, por sua vez, foram muito simpáticos: primeiro nos indicaram um lugar para armar a barraca, depois nos disseram para ficar no dormitório mesmo, já que o feminino estaria vago aquela noite. Mesmo com a gentileza e hospitalidade desses senhores, ainda não me sentia à vontade caminhando fora do dormitório, por mais que os soldados estivessem, agora, reunidos em volta de uma churrasqueira, cantando e contando piadas, parecendo jovens comuns, não fosse o uniforme camuflado.

No outro dia, levantamos bem cedo e às 7h já estávamos na estrada. Os primeiros 17km percorridos naquela manhã, cortavam o Parque do Taim, e foram de uma beleza quase indescritível. O banhado se estendia em uma faixa razoável, dos dois lados da pista. Era possível observar, além dos pássaros que já víamos a alguns quilômetros, ratos de banhado e capivaras. Eles eram em grande quantidade e, a toda hora, cruzavam a pista de um lado para o outro. Por conta disso, apesar de não passarem muitos carros por ali, tinha uma quantidade razoável de animais atropelados nas beiradas da estrada. Isso me fez pensar que levaríamos quase uma hora para atravessar aquele trecho – já que, para nosso azar, o dia estava sem vento – se estivéssemos de carro, porém, seriam no máximo 15 minutos. Se não fossem as capivaras para atrapalhar o trânsito, certamente muitas pessoas que passavam por ali nem iam se dar conta de onde estavam. Além disso, os sons ali eram muito variados, cantos de aves e barulhos de insetos, coisa que já não se escuta direito de bicicleta em dias de vento, quem dirá atrás dos vidros de um automóvel com ar condicionado.

Depois do Taim, a estrada continuava bonita, mas sem a mesma magia. Tudo que não era pasto para gado, era plantação de pinus, por isso a paisagem variava de grandes propriedades a propriedades enormes. O tempo ia passando e a próxima cidade continuava longe, a possibilidade de que, talvez, não conseguíssemos chegar naquele dia começava a aparecer. Por conta disso, eu comecei a pedalar mais rápido, a querer parar menos. Fazia um cálculo mental da velocidade, quilometragem e número de horas restantes, daria tudo certo se não fôssemos devagar e se não parássemos mais de 10 minutos. O Gil, por outro lado, por não ter tanto problema em acampar em qualquer lugar e por estar com um calo nas nádegas, queria parar bastante e fazer alguns trechos a pé, para não forçar o machucado. Aos poucos, os dois foram se angustiando por querer que o outro fizesse o que esperava e por sentir essa pressão de volta. Numa altura do campeonato, resolvemos botar as ânsias pra fora e enfim decidimos uma estratégia: eu iria a 20km/h sem parar e o Gil iria a 25km/h, e aí podia fazer algumas paradas no meio do caminho.

Depois de algumas boas horas, mortos de fome e sono, chegamos na cidade de Santa Vitória do Palmar. Era quase 10 da noite, e nosso contato já estava vindo nos buscar. Quando ainda estávamos sentados esperando, dois homens se aproximaram, um deles me cumprimentou e depois ao Gil. Virou para o outro e murmurou “Viu só, eu disse que eles não iam me reconhecer”. Ficamos nos olhando sem entender direito o que estava acontecendo. Em seguida o homem explicou que ele era o motoqueiro que encontramos na Quinta, depois do almoço. Conversamos um pouco com ele e com seu pai, que o acompanhava, e finalmente seguimos para um abrigo, com as pernas um pouco bambas.

M.

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