Arquivo do mês: dezembro 2011

Passando por Pelotas

A vontade de visitar a cidade de Pelotas surgiu da mesma forma que Porto Alegre: soubemos de um espaço libertário e decidimos conhecer as pessoas e ideias que circulavam ali. Enquanto o desvio para a capital riograndense foi de 150km, Pelotas ficava apenas a 62km da praia de Cassino. Com um bom vento de leste-sudeste, levantamos da cama empolgados apesar do céu encoberto e do frio.

“Sempre pelo litoral.” Mesmo não tendo compromissos com datas, esta frase nos guiava. Rapidamente aprendemos que parar nas cidades, no mínimo, duplicava nossos gastos. Porém, sair da rota e passar em locais indicados também era tanto uma boa forma de conhecer coisas interessantes, quanto uma chance para conseguir contribuições e propulsionar ainda mais a viagem. Se, independente de uma rodovia específica, fôssemos de um espaço libertário para outro, sempre arranjaríamos uma maneira de equilibrar as contas. Por que, então, saímos tão poucas vezes de perto da costa? Acho que era a vontade de entrar logo no Uruguay. Sendo o primeiro novo país que visitaríamos, sempre faltava cada vez menos para ouvir outra língua, comer de outro pão, conhecer outra hospitalidade. Assim que, talvez não tão conscientemente, pedalamos poucas vezes fora do sentido norte-sul no Brasil.

Como sempre fazíamos contatos apressados, chegamos na cidade sem o endereço da casa 171. Uma garoa começou a cair enquanto cruzávamos a ponte sobre o rio Pelotas, engrossando, mais adiante, e nos forçando oportunamente a esperar numa padaria. Enquanto M. telefonava, fiquei observando os pingos caírem sobre os alforjes empoeirados. Longe de lavar as bolsas, a chuva acabava encardindo e desbotando a lona de que eram feitas. Mesmo sem as capas de chuva, sabíamos que nossos equipamentos estavam protegidos, pois havíamos forrado os alforjes com sacos de plástico resistente. Uma gota caía, escurecia a cor do tecido e impregnava o pó das várias estradas que percorremos, formando uma memória invisível do que passamos.

 

Sobre o rio Pelotas

Enfim, nossa chegada foi recebida por um chileno, Filipe, que veio ao Brasil com intenções de ficar. Em seguida, apareceram um colombiano e dois argentino. Na antiga casa açoriana, moravam oito pessoas, metade estrangeiros. Se era para falar outro idioma, não precisávamos ir tão longe. Percebemos que cada um falava um castellano diferente: o chileno era aberto e rápido; o colombiano, enrolado e soturno; os argentinos, animados e um pouco mais claros. Nossas conversas rolavam em torno da situação política de cada região natal deles, as possibilidades ciclísticas dos vários lugares que haviam passado, indicações de hospedagens, parques, rios, contatos de amigos em diferentes países da América do Sul.

Enquanto isso, todos esperavam pela comida. Passava das três da tarde e a fome já não cabia na barriga. Na verdade, achei aquela história esquisita. Sempre cozinhávamos juntos nesses espaços coletivistas e, daquela vez, aguardávamos o almoço chegar lá pelo meio da tarde. Quando chegou, só pude achar fantástico: um amigo desse pessoal trabalhava num restaurante vegetariano e orgânico. Todos os dias, após o serviço normal, ele trazia os restos daquela deliciosa comida para umas dez ou quinze pessoas. Nosso trabalho era comer tranquilos e lavar a louça. Se queríamos comida diferente, aquele também era o lugar.

Mais tarde, aproveitamos uma parada na garoa para andar pelas redondezas. Havíamos ouvido falar do Quadrado, um pequeno pier com esse formato, onde estacionavam canoas, barcos de pesca e pequenas lanchas. Ali se reunia o pessoal mais novo da cidade para conversar, beber e fumar. Enquanto andávamos tentando encontrar a rua certa, passamos por antigos galpões e fábricas, provavelmente da época do antigo porto, que hoje estavam cobertos de grafites. Eram Bombs, estêncils, grafites figurativos, pixo. Foi fácil perceber uma pequena rixa entre os alunos da faculdade de artes e os pintores da rua. Os estilos e certos atropelos davam esse indício.

 

Fruto do trabalho escravo

Mas assim que chegamos ao local desejado, a chuva voltou a cair e ficou mais forte. Corremos para um bar que havia ali pertinho. (Viajando com pouca roupa, temos sempre que nos proteger e evitar sujá-las.) A televisão estava ligada num programa de “jornalismo criminal”, os dois clientes discutiam com o dono as barbaridades anunciadas, o ruído da chuva atravessava o telhado de amianto e respingava através da parede de bambu. Aproveitamos para jogar uma partida de sinuca, o que não fazíamos há muito tempo, e conversamos tranquilos sobre a viagem e o próximo trecho, que seria pesado. Torcíamos para a chuva passar e entrar um belo vento de nordeste, para que a travessia do Taim fosse mais fácil.

Naquela noite, tivemos a oportunidade de presenciar uma varieté. Havia na casa uma sala com luzes coloridas que servia de palco, onde se apresentaram vários artistas, entre malabares e músicos. Esse evento, aberto ao público, além de reunir um pessoal interessado, também servia para arrecadar contribuições para reformar a velha casa. Na época, escrevi num email o seguinte: “O local é um pouco bagunçado, porém bastante colorido. Claro que é fruto da casa ser velha e reconstruída com material reciclado (ripas, portas, móveis, muita coisa encontrada na rua). Essas casas antigas são sempre compridas, coladas com as vizinhas, com janelas apenas para a rua e para algum jardim interno. Isso faz com que sejam locais pouco iluminados e bastante úmidos. A altura do pé direito aumenta a sensação de que falta alguma coisa. Aqui, em especial, estão tentando aproveitar o forro para construir novos quartos. Só que o telhado é ruim e tem muitas goteiras. Quase todas as janelas têm vidros quebrados e o vento encanado é arrepiante. Combinado com a umidade e a pouca iluminação, daria uma boa casa mal-assombrada – não fosse o espírito anarquista, a fraternidade e a intensa movimentação e atividades que acontecem todos os dias.”

malabares

A história de Pelotas, como toda a invasão europeia na América, é cruel e literalmente sanguinária. A cidade retirou sua riqueza das grandes fazendas de charque que se instalaram na região. Eram enormes galpões abertos, onde a carne salgada ficava pendurada para desidratação. O sangue escorria para os rios tornando-os vermelhos, enquanto o ambiente insalubre obrigava uma grande distância do centro urbano. Os animais eram gados xucros que haviam se soltado quando os jesuítas foram expulsos da região. Estima-se uma matança de 400 mil cabeças por ano! (wiki-LINK) Além disso, para essas fazendas, foram trazidos negros que trabalhavam como escravos. Por isso, ainda hoje, certas desigualdades sociais continuam esfolando muita gente e constrangendo o poder local.

Na casa 171, foi onde aprendemos a fazer serigrafia, vimos o documentário Ciclovida, e também trocamos informações sobre compostagem, fotografia, software livre e coletivismo.

Esquentando as pernas no fogão à lenha

 gil

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Rio Grande

A cidade de Rio Grande é dividida, de maneira geral, em duas partes: o centro, que fica à beira do canal que liga a Lagoa dos Patos ao mar; e o Cassino, bairro praiano majoritariamente de veraneio, que dá acesso à praia de mesmo nome. Passamos a maior parte do tempo no Cassino, que estava submerso em obras para a próxima temporada.

Os primeiros dias, passamos com Dudu e Valentina. Lhes conhecemos em uma das oficinas que realizamos em Porto Alegre, e sua disposição nos ajudou muito, especialmente no trecho de lá até o Chuí. Depois, buscamos, através do couchsurfing, outro lugar para ficar. Nossa intenção era permanecer mais alguns dias ali, já que as bicicletas estavam na revisão (gentilmente oferecida pela bicicletaria Nobre). Também estava chegando o dia mundial sem carro, e, como vimos vários cartazes de divulgação, pensamos em participar dos eventos e organizar uma oficina.

Encalhado em 1975, o barco Altair está quase desaparecendo na areia

Na escola de vela do iate clube de Rio Grande

Samantha e Milena nos receberam em sua casa, também no Cassino. Tinham muitas histórias para contar, especialmente sobre viagens que haviam feito de carona. Achei incrível. Viajar sozinha de carona é tão desafiador, que a reação negativa das pessoas é mais que previsível. É melhor agarrar-se em argumentos de que é perigoso, que a pessoa teve sorte, que ela é maluca ou tem algum super-poder, do que ponderar que isso seja possível. Num universo não muito distante, as pessoas se assustam com mulheres que saem de noite, que andam na rua ou que respondem a alguma barbaridade que escutam sem estarem acompanhadas da “protetora” presença masculina.

Além das viagens, o sistema de caronas também funcionava como meio de transporte de curtas distâncias. No dia em que voltávamos da oficina na FURG (Universidade de Rio Grande), encontramos dezenas de estudantes pedindo carona na rodovia, para voltar para casa. E não havia distinção: garotas, garotos, pessoas sozinhas ou em grupos. Ficamos ali uns 15 minutos até chegar nossa vez e embarcarmos de volta para o Cassino.

Acabamos não participando das bicicletadas que ocorreram no dia mundial sem carro. Porém, realizamos uma das oficinas no gramado da FURG. As pessoas que participaram – e que gentilmente aguardaram nosso atraso – se mostraram muito interessadas, todas com algum plano de viajar assim um dia. Depois da oficina, um dos participantes foi nos visitar na casa das meninas e nos presenteou com lanternas de led para as bicis.

Pôr-do-sol na Lagoa dos Patos

Cuidado: pedestres!

Tínhamos planos de sair de Rio Grande e pegar a 471 sentido Chuí. Porém, alguns dias antes de partirmos, descobrimos um espaço em Pelotas e decidimos passar por lá para conhecer. Num dia de vento leste, carregamos novamente as bicis e voltamos para a estrada.

M.

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