Arquivo do mês: novembro 2011

Chegada em Rio Grande

Recém passava das cinco da tarde quando desembarcamos em Rio Grande. A travessia foi de congelar os ossos: o sopro do Nordeste continuava violento e o motor do barco tratava de cuspir a Lagoa dos Patos em nossos rostos.

Desembarcamos e fomos direto à procura de nosso contato. Lúcio dá aulas de windsurf e tem uma escola de vela dentro do iate clube da cidade, onde passaríamos umas noites. Como não sabíamos se ele estaria comunicável, já que poderia estar no mar, resolvemos ir até o iate clube procurá-lo. Não encontrando-o, batemos papo com o porteiro e depois arranjamos um lugar para sentar e esperar.

Canal de Rio Grande

Passados alguns minutos, um homem se aproximou. Também era ciclista, e já havia feito algumas pequenas viagens. Logo perguntou-nos se tínhamos lugar para ficar. Respondemos que sim, que íamos ficar na escola de vela, mas não estávamos conseguindo falar com nosso contato, e por isso dávamos um tempo ali. Ele se mostrou preocupado, murmurou alguma coisa e saiu ligeiro. Quando voltou, nos disse que tinha perguntado ao dono do terreno ao lado e no museu de oceanografia se podíamos acampar ali, mas que não havia tido êxito.

De qualquer forma, a secretaria do iate clube fica ali na frente, dá pra ir conversar, assim já acertam as coisas – disse-nos o ciclista – O nome da coordenadora é Fulana, eu trabalho aqui também, vamos lá falar com ela.

Fiquei um pouco receosa, pensava que talvez fosse melhor esperar pelo Lúcio, mas, quando me dei conta, já estávamos entrando no escritório. Lá dentro, quatro jovenzinhos trajados de anúncio publicitário discutiam com a secretária sobre uma lista de convidados para sua festa.

– Oi, precisamos falar com a Fulana

– Sobre o que seria? – nos perguntou a moça através do batom sorridente

– Preciso falar com ela, é sobre uns ciclistas que precisam ficar aí no Yacht Club, eles estão viajan…

– Creio que não seja possível.

– Bom, eu só preciso falar com ela, aí resolvemos.

Como a mulher parecia bem atarantada com os garotos, que faziam ligações, discutiam entre si e mudavam de ideia, balançou o braço nos indicando a sala ao lado.

– E vocês, o que seria? – nos idagou, com a mesma felicidade plástica que havíamos visto do outro lado da porta.

Nosso amigo explicou a situação, e a cada palavra que falava, os músculos faciais da moça se rearranjavam, contraindo-se onde antes relaxavam e vice-versa, até modelarem uma expressão de seriedade com pitadas calculadas de irritação.

– Bom, O Comodoro não me falou nada sobre isso. Mas é impossível. Nós, do Yacht Club, temos um local de alojamento para velejadores, mas é preciso ser velejador para usá-lo. Não, não há maneiras.

Ainda tentamos mais um pouco. Perguntamos se não podíamos acampar em algum cantinho do imenso gramado, e depois dissemos que tinham nos indicado aquele lugar para ficar, que podíamos ficar na escola de vela, já que só íamos dormir, e mais nada. A moça continuava com os trejeitos, parecia se divertir na sua intransigência, e, devo dizer, acabava nos divertindo um pouco também, com as caretas e suspiros impacientes.

– Não, ninguém pode autorizar nada sem que Os Comodoro tenha conhecimento. Olha, fazemos o seguinte: eu vou ligar para Os Comodoro. Provavelmente Eles não vão atender, porque estão ocupado, mas vocês podem aguardar.

Fomos lá para fora. O rapaz que nos acompanhou estava perturbado por não ter conseguido ajudar. Dissemos a ele que relaxasse, qualquer coisa tínhamos outros lugares para ir, não era preciso se preocupar, de verdade. Depois que ele foi embora, sentamos no meio fio e começamos a descascar mixiricas.

Logo, a moça apareceu de novo. Veio andando até onde estávamos e parou na nossa frente. Esperou que nos levantássemos, mas, como não fizemos, começou assim mesmo. Ficou uns 3 minutos falando, vomitou um monte de frases repetitivas, invocou Os Comodoro algumas vezes, e, como não contestávamos nas deixas dramáticas de seu discurso, emendava com alguns improvisos meio bobos como “a escola de vela é uma escola, foi construída para dar aulas, as pessoas não podem dormir lá dentro porque ela não foi feita para isso”. Depois de esgotar suas citações indiretas ao estatuto, desculpou-se do fundo do coração por não poder fazer nada, e lembrou-se de abrir o sorriso. Ela ainda ficou ali parada uns segundos antes de ir embora, talvez esperasse alguma resposta ou lamúria, mas como estávamos com a boca cheia de mixirica, infelizmente não podíamos fazer nada sobre o assunto.

Um tempinho depois, Lúcio apareceu. Disse que veio nos resgatar, íamos para a casa dele. Encaixamos as bicicletas e as bagagens no carro e partimos. Ele não se desculpou conosco sobre o acontecido. Ao invés disso, quando estávamos passando na frente da secretaria, abriu o vidro e soltou alto suas críticas para as empregadas que agora saiam do expediente.

– O Dudu me disse que ele e a Valentina vêm para Rio Grande essa noite. Como não vai ter mais ninguém na casa da irmã dele, vocês podem ficar lá também. Mas hoje fiquem lá em casa, tranquilaço.

M.

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A Estrada do Inferno

Desde Curitiba até Porto Alegre, viemos ouvindo terríveis histórias sobre o trecho final da BR-101. Diziam que era uma rodovia abandonada, esburacada, mal-assombrada, que recebia o curioso apelido de A Estrada do Inferno. Assim, a expectativa era grande, mas, ao dobrarmos à esquerda depois de Palmares do Sul, fomos recebidos por bandos de azulões cantadores e um cheiro de pasto que anunciava a mudança de estação.

Túnel Verde, indo para Palmares do Sul

O trânsito era escasso. Compunha-se na maioria de caminhões de toras e aí o espelho foi essencial, pois quase não tem acostamento ou o mato já invadiu bastante.

Quando o sol ia baixo, chegamos num vilarejo chamado Frei. Havia uma igreja, ao lado a escola, na frente um mercadinho. Compramos provisões e ao ver uns homens saindo do salão paroquial, chamei M. para irmos lá pedir um espaço.

– Não, não. Ninguém pode ficar nas dependências da igreja.

Quis argumentar, apelar, mas sabia que não adiantava. Na hora, tinha ficado chateado e aí provoquei. Mas se a eles não lhes importava, então o diálogo nem havia existido. Fingiram que não ouviam, entraram no carro e tchau. Pensamos em ir na escola, mas ainda estavam em aula. Não adiantaria.

Pela estrada vinha um cavaleiro:

– Boa tarde, senhor. Por acaso não saberias onde poderíamos passar a noite? Procuramos um campo, uma casa com jardim, um galpão. Saberias de alguém que pudesse nos ajudar?

– Ah, não sei. Ali na frente, onde sai aquela antena, tem um alemão que acho que aluga alguma coisa.

Ele estava bem arrumado, lenço vermelho no pescoço, bota lustrada.

– É que buscamos somente um lugar para armar a barraca.

– Olha, no próximo povoado tem um grupo de cavaleiros que vai passar a noite aí. Procura no ginásio atrás da igreja pela Chama Gaudéria. É até capaz que lhe deem comida.

Dito e feito. Chegando em Bacopari, conversamos com um pessoal e nos deixaram dormir com eles no ginásio. Enquanto arrumávamos as bicicletas num canto, os gaúchos preparavam aquele salão paroquial para o baile da noite. Quando fui tomar banho, encontrei um cara guardando a entrada do banheiro: sua esposa tomava banho no único chuveiro quente do lugar. O tempo de espera foi suficiente para criar uma empatia entre nós.

Descansando antes da janta

Mais tarde, estávamos deitados e limpos quando nos chamaram para comer: éramos convidados. Mas antes de entrarmos no salão, meu novo amigo, Marcos, nos chamou:

– Vocês tem algum objeto insignificante, uma moeda que seja? É que eu vou lhes dar um presente e se não for trocado por algo, aí cria uma inimizade.

Trouxemos um bótom da bicicletinha, daqueles que fazemos.

– Uau, ótimo!

Então Marcos tirou de dentro de seu casaco um punhal.

– Eu faço facas artesanais. Esta é com aço de mola de fusca, cabo de madeira, bainha de retalho de couro.

Aquele gesto nos emocionou. Durante a janta, fiquei pensando na vida daquelas pessoas. Marcos vivia num assentamento com mais algumas famílias e tiravam seu sustento de pequenas atividades do campo (no caso do nosso amigo, de uma loja agropecuária). Não tinham quase nada de terras, mas mesmo assim traziam a dignidade encarnada. Muito me admirava a preocupação estética que tinham. Se vestiam com esmero, as cores eram bastante variadas, traziam diversos adereços como boinas, lenços, anéis, ponchos, capas, chapéus. Se acercavam com amizade e alegria, mesmo a desconhecidos como nós. O código de hospitalidade parecia dizer que todos eram iguais, não cabendo a alguns uma parte boa enquanto a outros algo pior. Ali, durante aquela semana de cavalgada, recorrendo as fazendas e povoados da região, todos eles se destacavam tanto pelos gestos e vestimentas que era impossível não comparar com o descaso dos hábitos urbanos.

Apesar desse clima fraterno, era evidente a presença da cultura machista. Por exemplo, a cavalgada gira em torno de uma homenagem a um falecido nativo da região e eram sempre homens, por mais que o cartório registre uma quantidade parecida de ambos os sexos. Outra coisa foi termos jantado sem a presença das mulheres em nossa mesa. Onde estavam aquelas que havíamos visto mais cedo? Além disso, por mais que pareça lindo, os famosos gestos cavalheirescos apenas reforçam diferenças sociais que não deveriam existir.

Pessoal da cavalgada da Chama Gaudéria (Bacopari)

No caminho até a cidade de Mostardas, havia dois lugares interessantes para conhecer: a lagoa Bacopari e o Farol da Solidão. Porém, as estradas de areia nos impediram de chegar até lá. O mesmo aconteceu com o Balneário Mostardense. Mas antes, pela primeira vez, fomos alcançados por um cicloviajante. Zeca vinha de Joaçaba e tinha seus dias de férias para ir até Chuí. Como havia pego chuva em alguns trechos, queria aproveitar bem o vento para recuperar o atraso. Assim, foi engraçado, pois nos encontramos várias vezes até São José do Norte, porém sem nunca pedalarmos juntos: enquanto descansávamos, ele passava, e vice-versa.

Em Mostardas, fiquei surpreso com o tipo de arquitetura que encontramos. Era claramente o estilo açoriano que há no litoral catarinense. O curioso é que, de todas as cidades litorâneas que passamos no Rio Grande do Sul, essa foi a primeira com sinais portugueses. Suponho que seja porque não há como uma embarcação parar nessas imensas praias. Toda a colonização foi feita dentro das lagoas, como Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande. Aí reconhecemos facilmente os mesmo casarios de Florianópolis e Laguna. E nessa parte sul, também conseguíamos identificar semelhanças de sotaque com os manezinhos descendentes de açorianos de Santa Catarina, fato esse que não ocorre nem nas citadas cidades lacustres nem nos novos balneários do norte.

No caminho para Mostardas, uma região de campos

As pessoas da cidade eram muito simpáticas. Todas. Quando ainda estávamos decidindo se ficaríamos ali ou não, perguntamos sobre um local para acampar e várias soluções apareceram (mas nenhuma era muito segura, como por exemplo, “ali na praça já ficou gente em barraca. Acho que a polícia não vai fazer caso”.) Como o vento estava bom, seguimos para Tavares.

Assim como Mostardas, Tavares parece ter sido uma cidade de passagem da época das tropas (não encontrei informações relevantes na internet). Chegamos no fim da tarde e fomos direto perguntar onde estavam os bombeiros. Porém, o endereço que obtivemos foi o da polícia. Já que o tio de M. nos disse que podíamos contar com os brigadianos gaúchos, fomos à delegacia. Havia apenas um policial.

– Estamos viajando de bicicleta, precisamos de ajuda, etc.

– Está bem. Mas me digam, o que realmente precisam?

O sargento Rudimar nos levou para os fundos, por dentro da casa, onde havia um pátio de areia com sinais de que recém terminavam uma reforma. Dentro, vimos gulosamente dois beliches num quarto.

– Podem armar aí, onde achem melhor. Mas para usar o banheiro, terão de dar a volta, pois essa porta de trás fica sempre fechada.

Tudo bem. O vento estava forte e toda aquela areia subia alto. Na verdade, havia areia em todo lado. Sempre que abriam uma porta, o lugar se sujava. Começamos a desmontar as coisas da bicicleta.

Uns minutos depois:

– Olha, se quiserem, podem usar o dormitório. Desse jeito é mais fácil, mas aí vocês terão que ficar apenas entre o quarto e a cozinha. Imaginem se as pessoas que passam olharem gente estranha circulando pela delegacia. Não vai pegar bem. Assim, vocês ficam aí tranquilos fazendo comida, conversando, e ali na frente somente os policiais. Isso é o que podemos oferecer, não temos cama de casal.

Depois disso, ficamos bem à vontade. Tomamos um bom banho e jantamos. Ali pelas nove horas, chegou outro policial. O sargento nos explicou a situação.

– Aqui na cidade tenho apenas dois soldados à disposição. Como são quatro turnos de trabalho, aí temos um problema. A forma que achei para resolver foi fechar a brigada em um dos turnos. E qual é o período que tem menos ocorrências? Exato, fechamos pela manhã! Isso quer dizer que vocês cuidarão do soldado Pedone aqui e amanhã cedo, antes de terminar o turno dele, às sete horas, vocês terão que sair. Tudo bem? Caso ele tenha que atender alguma coisa, aqui estão as chaves, para alguma emergência. Por hoje já deu para mim. Boa sorte com a viagem e não esqueçam de falar bem da brigada de Tavares no blog de vocês.

Depois dessa recepção, tivemos uma ótima noite. Mesmo tendo rodado 123km até ali, no dia seguinte estávamos com energia para os 138km que teríamos até a próxima cidade. Um forte abraço aos amigos de Tavares!

Depois de intermináveis quilômetros e um bom vento a favor, chegamos a São José do Norte. Todo esse trecho da Estrada do Inferno possui apenas dois tipos de vegetação: campos e pinheiros. Pelo andar da carruagem, a região terá o destino de todas as planícies: primeiro pasto ou agricultura diversificada e rotativa; depois pinus ou eucalipto. E por último, porque depois não haverá mais nada, soja. Hoje, as porções de “reflorestamento” estão por todo o litoral onde passamos, já que essas árvores dão bem em areia e precisam de muita água, o que aqui no sul não falta pois há muitas lagoas (vi regiões no oeste catarinense em que plantações de eucalipto secaram os riachos que irrigavam campos de diversas famílias e seus poços). Tragédia ambiental parece pouco para esse tipo de ambição.

Logo que chegamos, fomos direto ao terminal marítimo descobrir o horário do barco para Rio Grande. Por ali, é curioso a utilização de charretes para o transporte de mercadorias. Enquanto esperávamos, conhecemos o centro antigo, também de colonização açoriana, que está preservado. No entanto, a cidade era feia e a quantidade de cachorros sujos e doentes jogados nas ruas se confundia com os trabalhadores do pequeno porto dando um ar decadente. Assim que pudemos, cruzamos o canal.

Porto de São José do Norte

Chegando à cidade de Rio Grande

gil

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Telegráfica de Mar del Plata

Hoje pela manhã fomos levar as bicicletas para uma bicicletaria a fim de fazer uma limpeza geral e regular cambio e freios. Nós temos algumas ferramentas para uso emergencial, mas nos falta várias especiais para realizar esse tipo de manutenção, além de tempo e espaço apropriado. Fomos então a um lugar chamado Curuchet Bicicletas, uma recomendação de um amigo nosso, o qual dizia serem profissionais muito bons, senão os melhores da Argentina. Os irmãos Curuchet eram ciclistas de corrida e após terem ganhado vários prêmios (inclusive olimpíadas) se tornaram heróis nacionais. E possuem essa tal bicicletaria em Mar del Plata onde fomos lhes pedir uma mão.

– Hola, que tal? Nosotros somos de Brasil y estamos haciendo un viaje en bici desde Curitiba hasta Ushuaia. Por esta ciudad estar en el medio de nuestro camino piensamos en hacer una buena revision y tal vez cambiar algunas piezas. Venimos acá pedirles una ayuda por que nos recomendaran y que sabemos lo bueno que es su trabajo.

– No, no. Acá no se hace este tipo de cosas. Ayudar nosostros yá ayudamos hospitales, geriátricos, comedores…

– Pero somos ciclistas! Estamos hace más de tres meses en la ruta con esta misma bicicleta y solamente precismos arreglar algunas cosas.

– No.

Foi a segunda vez que passamos por esse tipo de situação, mas sem dúvida foi a pior de todas, pois estávamos entre ciclistas. Em geral, os esportistas têm enormes dificuldades de conseguir patrocínio, muitas vezes não estão com o equipamento adequado e não conseguem competir. Sabem disso e são solidários com os seus.

Nós, além de ciclistas, somos viajantes. Precisamos de pouquíssimas coisas, mas sempre coisas necessárias. Por tudo isso, fiquei imensamente transtornado com a conversa que tivemos na bicicletaria dos Curuchet. O total desinteresse, a falta de tato e grosseria foram tamanhas (não dá para reproduzir no diálogo acima) que saímos o mais rápido possível do lugar para evitar que o sujeito falasse mais barbaridades.

“Aqui nao se faz esse tipo de coisas”? Nós não acreditamos em heróis, mas, por outro lado, me veio a pergunta: Como podemos respeitar essas pessoas? Como é possível que a Curuchet Bicicletas seja referencia para toda a Argentina?

A algumas quadras  dali conseguimos de graça uma revisão geral para o dia seguinte.

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Porto Alegre a Baln. Pinhal

Sair de Porto Alegre não foi tão fácil como entrar. Antes tínhamos alguém para nos guiar, agora estávamos com um mapa impresso contendo somente as principais ruas. E aconteceu que seguimos pela Assis Brasil até que ela sorrateiramente se bifurcou e não demos conta. (Foi aí que conhecemos o Alemão Camparra!) Depois de pedalar uns cinco quilômetros por uma região que não me parecia com nada que tinha visto na entrada, olhamos o nome da avenida em que estávamos e pimba: avenida Baltazar de Oliveira Garcia. Entramos numa padaria para descobrir um atalho de volta.

– Ai, ai, ai. Vocês passaram lá trás o trevo. Deixa eu chamar o fulano que ele vai te dizer melhor.

Enquanto ele não vinha, ficamos olhando as vitrines e a essas horas a fome já voltava a dar sinais.

– Moça, não poderias nos ajudar com um pedaço desse bolo gostoso?

Ela olhou para dentro da cozinha e voltou.

– Que tamanho tá bom?

Abrindo um sorriso, mostrei com os dedos um pedaço considerável. Aquela quantidade de açúcar foi suficiente para ficarmos cheios por umas duas horas.

Na freeway, o trânsito continuava o mesmo e o acostamento tranquilo. Somente quando estávamos chegando em Osório a coisa complicou, pois estavam asfaltando a via. Em algumas partes fomos apertados com os veículos, em outras andamos pelo asfalto fresco (que resultou ser bastante desagradável pois as pedrinhas com piche grudavam no pneu e saltavam para todos os lados, desde a corrente até dentro da meia).

Fim de tarde na Lagoa dos Barros

A recepção pelos tios de M. em Osório foi muito agradável. Sugeriram logo de cara irmos ao mirante do Morro da Borússia. Apesar de viverem na cidade há muitos anos, nunca tinham subido ao mirante pela noite. E todos ficamos admirados com a vista da região: logo abaixo, Osório se espalhava iluminada e tivemos uma noção do seu tamanho; aqui e ali, contornadas pela iluminação pública, algumas das inúmeras lagoas nos eram apontadas por Romeu e Marlei; lá ao fundo, como que formando a linha do horizonte, as cidades costeiras indicavam até onde ia a terra: Capão Novo, Capão da Canoa, Tramandaí. Um pouco mais ao sul, numa área bem escura, dava para ver umas luzinhas vermelhas piscando.

– Olha, são os cataventos!

Vista do Morro da Borússia

Osório, homenagem do interventor republicano Flores da Cunha a um monarquista que lutou com os rebeldes na Revolução Farroupilha (?!), era um lugar de passagem sem muito futuro. Quando as pessoas souberam que aquele vento terrível, que jogava areia nos olhos e estragava todo tipo de penteado, seria aproveitado para gerar energia, logo ficaram animadas. A cidade se tornaria atraente e começaria a crescer. Mas como toda a riqueza extraída pelos cataventos fluía exclusivamente pelos cabos de alta tensão (como costuma acontecer), a população ficou chupando dedo: devido à especulação, os preços dos alimentos e imóveis aumentaram. E o pior de tudo, o vento continua arrancando telhas.

Esse Osório andou pintando o sete com bastante vermelho

Na manhã seguinte, seguimos para Tramandaí. Logo que estávamos entrando na zona urbana, paramos para comer e um motoqueiro se acercou. Fazia cavalgadas pelo estado e contou que as pessoas achavam estranho esse tipo de coisa. Ele se solidarizava conosco, pois pensava que o caso seria o mesmo com cicloviajantes. Perguntei-lhe quanto andava um cavalo por dia e ele respondeu que entre 30 e 60km. Carregando tudo e usando as próprias pernas, fazemos entre 60 e 120km (só que precisamos de uma boa estrada).

– Aqui temos uma cavalgada tradicional que recorre todo o litoral, pela areia. Já ouviram falar de Pereira de Abreu? Pois é, foi ele que desbravou todo esse Rio Grande.

Depois vim descobrir que ele não fez só isso. Nascido em Portugal, lutou pela retomada do Rio de Janeiro em 1711, quando a cidade estava tomada por corsários franceses (wikipedia). É considerado o pioneiro na travessia planaltina de Rio Grande do Sul até São Paulo com 3000 cabeças de gado, tendo passado em outro momento por Curitiba para abastecer as forças imperiais. A mando de José da Silva Paes fez o reconhecimento da barra de Rio Grande de São Pedro onde depois seria fundada a vila com mesmo nome. Mais tarde, em 1751, comandou a investida contra os espanhóis em Colônia do Sacramento (link). Estaríamos andando pelos caminhos que Pereira de Abreu desbravou?

Praia de Tramandaí

Por ser uma cidade mais antiga, Tramandaí ainda não caiu na onda dos condomínios fechados. Vimos por todo o litoral norte do Rio Grande do Sul enormes loteamentos murados, com cercas elétricas e seguranças. Esses micro enclaves, como é sabido, geram considerável desconforto e aumentam, inclusive fisicamente, as desigualdades sociais locais. E além de tudo, ficam desabitados durante a maior parte do ano! Por que conforto está associado com desperdício e ineficiência? Me parece uma burrice tão grande quanto usar automóvel todos os dias, já que ele gasta mais da metade do combustível só para manter o motor funcionando. É tanta energia jogada fora que a solução não deveria ser construir novas usinas ou aerogeradores e sim parar de consumir tanto.

Durante o caminho, sempre que havia uma entrada, íamos até a praia para descansar e comer fruta. É comum haver grandes trapiches nos balneários, e, na esperança de não cobrarem entrada, íamos ali para tentar ver novamente as últimas baleias francas deste inverno (mas eram todos pagos…).

Péssima ideia (Tramandaí)

Mais para dentro, só nadando (Tramandaí)

Parque Eólico de Osório: uma visita na surdina

Saindo de Tramandaí, o vento deu uma boa ajuda

Chegando em Balneário Pinhal, fomos interceptados por um carro. O sujeito nos perguntou de onde vínhamos, para onde íamos, se apresentou como brigadiano e somente depois disse que já tinha viajado em bicicleta para Florianópolis e nos ofereceu sua casa para pernoitarmos. Seu nome era Medina, policial militar e bombeiro de Pinhal, vivia numa pequena casa ao lado do irmão, perto da rodovia.

– O pessoal aqui não entende por que eu viajo de bicicleta.

E, em geral, nós também não temos isso tão claro.

Eu lhe disse:

– Tens muito mais cara de bombeiro que PM. Por que trabalhas nos dois serviços?

– No Rio Grande do Sul, as duas coisas são juntas. Mas no verão, fico mais de bombeiro. É o que prefiro. E por falar em trabalho, meu turno começa daqui a pouco. Vou deixar as chaves com vocês e depois que se ajeitarem aqui, venham tomar um mate na delegacia aí pelas nove, beleza? Se der uma brecha, venho jantar com vocês, mas, de toda forma, amanhã cedo estou para o café.

Tomou banho, vestiu o colete à prova de balas e saiu. Enquanto fazíamos a janta, ouvi a televisão do vizinho anunciar o início do Chaves. Ah, saudade da infância, saudade de casa. Lá pelas tantas, fomos à delegacia encontrá-lo e ver a previsão do tempo.

gil

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Serigrafia

No espaço em que ficamos em Pelotas, existia um estúdio caseiro de serigrafia. Eu já havia feito planos de confeccionar uma mesa de luz, mas não tinha muita ideia nem de como lidar com ela. Nesse lugar, porém, em menos de uma hora de conversa, já tínhamos aprendido todo o processo, desde a montagem da mesa e telas, até a marcação no tecido (com direito a demonstração).

Repassamos aqui o que aprendemos:

Mesa: Uma estrutura bem simples, pode ser montada em cima de um caixote de feira, ou em um vaso de barro. O importante é que todos os lados que circundam a lâmpada, exceto a parte de cima, estejam vedados. A parte de cima é coberta com um vidro. A lâmpada deve ser de 250 a 500W.

Tela: Pode ser feita de voal bem esticado, com as bordas presas em uma armação de madeira.

Queima da tela: A arte escolhida deverá ser impressa em uma folha de papel vegetal ou em uma folha comum besuntada posteriormente de óleo de cozinha, para que fique semi-transparente. Será preciso emulsão fotográfica verde e sensibilizante serifoto, misturados na proporção de 9 para 1 – como a quantidade é pequena, a medida pode ser feita em colheres de chá. A partir daqui, todo o processo deve ser feito em local vedado da luz (é possível fazer a vedação, por exemplo, com cobertores nos vãos da porta). Como iluminação, deve ser usado luz negra ou luz vermelha. A mistura deve ser espalhada na tela com uma espátula de plástico. Não é necessário derrubar muito líquido, o importante é que ele fique bem espalhado dos dois lados. Depois disso, posiciona-se a arte no centro da mesa de vidro e coloca-se a tela em cima. Liga-se a luz da mesa durante 6 minutos. Agora, a tela marcada tem que ser lavada com um jatinho leve de água. A lavagem já pode ser feita em contato com a luz. Depois de lavada, a tela deve secar naturalmente ou com o auxílio de um secador de cabelo, até não grudar.

Marcação do tecido: Usa-se tinta de tecido comum, espalhada na tela com espátula de plástico. Não precisa de muita tinta, um pouquinho já pode ser usado por várias vezes.

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