Arquivo do mês: outubro 2011

Porto Alegre

A tranquilidade da Estrada do Mar aliada ao forte vento que soprava naquela manhã fez com que chegássemos em poucas horas até Osório. Obviamente seria melhor continuar pedalando e parar mais adiante, em Santo Antônio da Patrulha ou talvez Gravataí. Assim, numa velocidade em torno de 35 km/h (sem o menor esforço) atravessamos o parque eólico muito contentes com tal ajuda até que chegou uma curva perpendicular à direita. Na ida para o Farol de Santa Marta, ao sul de Laguna, aconteceu o mesmo. Naquela vez, o vento lateral lançava areia violentamente sobre a pista, impedindo que cruzássemos um trechinho de quinhentos metros cercado de dunas e enormes sambaquis. Agora, o vento fazia com que andássemos inclinados e nos jogava para a pista. A primeira ideia que tivemos foi trocar de acostamento, sendo assim lançados ao barranco do lado da estrada ao invés de contra um veículo. A segunda, logo em seguida, foi desmontar e ir caminhando tranquilos até a próxima curva, o que aliviou a tensão daquele pedaço.

Parque Eólico de Osório

Já tínhamos ouvido falar que era proibido o tráfego de bicicletas na freeway, mas isso é totalmente ilegal. Por um lado, o Código Brasileiro de Trânsito diz que em qualquer estrada (de terra, paralelepípedo ou uma rodovia federal, como é o caso da freeway) os veículos de tração animal e bicicletas devem andar pelo acostamento, quando houver; por outro, há o alardeado direito de ir e vir (que parece funcionar apenas mediante algum tipo de pagamento: imposto, combustível, pedágio). Nós não poluímos, não oferecemos risco a ninguém, não estragamos o pavimento, não fazemos barulho. Depois de tudo isso, faz algum sentido tal proibição? Alguém pode dizer que um automóvel a 120 por hora é muito perigoso. Na verdade, qualquer carro ou caminhão acima de 20 km/h pode ser fatal para um ciclista ou pedestre. Se fôssemos pensar assim, nem teríamos saído de casa.

O fato é que o acostamento na freeway é do tamanho de uma pista e nenhum veículo pensa em passar ou parar ali, pois tem muita pressa. Assim como a BR-101 duplicada em Santa Catarina, esse trecho até Porto Alegre é bastante seguro e tranquilo, tendo apenas o inconveniente do ruído.

Depois do primeiro pedágio, encontramos um sujeito chamado Vinícius que devia estar entrando na casa dos quarenta. Ele vinha com uma bicicleta daquelas sem marcha nem freio de mão, na cestinha apenas um casaco e um gorro. Vinha de Tramandaí, onde tinha uma casa, e ia até Porto Alegre (uns cento e pouquinhos quilômetros), tudo no mesmo dia e sem comida. Lhe dissemos que podíamos ir juntos, mas que ficaríamos antes, pois já tínhamos pelo menos 40km a mais que ele.

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M. ia animada na frente, enquanto conversávamos mais atrás. Ele me contou sobre como deram fim nos trinta cachorros que havia recolhido da rua e tratava, sua família terrível, suas pedaladas impulsivas para a serra, uma operação nas pernas que deixou-o sem andar de bicicleta por mais de um ano, uma vida ferrada por conta de pessoas sacanas que cruzavam seu caminho. Uma pessoa amargurada pelo ódio à sociedade e as desgraças que não o deixavam viver em paz. Essa conversa, intercalada por várias paradas onde comemos frutas, pão, queijo, bolachas, rapidamente nos levou até Santo Antônio da Patrulha. Olhamos o céu, sentimos as pernas, revisamos os mantimentos. Decidimos continuar.

– Qualquer coisa ficamos em Gravataí, então.

– Se vocês quiserem, vamos até Porto Alegre. Agora que estamos juntos eu não vou deixar vocês largados. Podem ficar lá em casa ou eu levo vocês até a casa dos seus amigos. Onde fica?

Ele sabia chegar, mas já foi avisando que andaríamos um pouco mais.

Ninguém consegue imaginar que ali, naquela BR, pode acontecer um pôr-do-sol tão maravilhoso. Durante meia hora vimos o sol descer entre os campos e pudemos apreciar o forte amarelo do entardecer transformar-se naquele lusco-fusco que escurece lentamente o azul do céu até aparecer as primeiras estrelas.

Chegamos a Porto Alegre já de noite e ali sim tivemos que enfrentar um trânsito rápido, fumacento e agressivo. É incrível como nosso corpo se engana quando entramos numa cidade grande. Sempre esquecemos que é preciso rodar muito até chegarmos realmente ao nosso destino, um banho, aquela sonhada cama. Foram pelo menos mais 20km até nos despedirmos do grande colega Vinícius, totalizando 152km em mais de 12 horas de estrada. Eu nem podia acreditar que tínhamos pedalado tanto, alguma coisa ainda me dizia que aquilo não era possível. (Na verdade, depois viemos a saber que fazer tantos quilômetros assim não era muito saudável, isso sim.)

Aqui seria interessante fazer uma pausa no relato, deixar passar alguns dias, mas esse pequeno interlúdio é simplesmente uma artimanha para poder mudar um pouco de clima e assunto. Então, continuamos.

Eu já conhecia Porto Alegre das vezes que vim para o Fórum Social Mundial em 2003 e 2005 e nós conhecíamos da 1a Feira do Livro Anarquista o lugar onde ficaríamos alojados. O Espaço Libertário Moinho Negro é uma casa não muito antiga no bairro Azenha, onde acontecem várias atividades livres como oficinas de malabares e tambores, cineclube, shows de bandas, festas e onde também funciona uma diversificada biblioteca.

Aproveitamos para rodar pelos sebos, assistir a uma leitura dramática com o escritor João Gilberto Noll, limpamos as bicicletas, costuramos um par de pedaleiras, lemos textos interessantes (Situacionistas e Distúrbio Eletrônico). Após um dia de chuva, visitamos pela noite a Cidade das Bicicletas, espaço onde funciona uma oficina comunitária, com escambo de peças, ferramentas e conhecimento.

Oficina da Cidade das Bicicletas

Também tivemos o desprazer de estar numa cidade grande durante o feriado de Sete de Setembro, que não é nem mesmo interessante por ser feriado. O evento louva encardidamente noções primitivas como nação e “o brasileiro”, espetáculo que só consegue piorar com o fantasmagórico desfile de pessoas treinadas para matar, soldados que seguem ordens de um sempre ilegítimo e corrupto governo e um público ávido por catástrofes alheias, exploração com fins de enriqucimento e consumo desengonçado.

Desfile do absurdo – POA

Teatro de rua em protesto ao desfile de 7 de setembro

No nosso último dia naquele centro urbano, ajudamos o pessoal da casa a retirar quatro grandes lajotas da calçada em frente à casa para poder plantar alguma árvore frutífera. Alguém comentou que esse tipo de árvore era proibido em cidades, o que nos pareceu um tremendo absurdo. Mas puxando da memória, as árvores que estão nas ruas de Florianópolis (se é que há alguma), em Curitiba e ali, fora algumas exceções, todas parecem ter sido plantadas apenas para fazer sombra, como também é o caso das cidades espanholas do Uruguay e Argentina. De propósito não há frutos de graça nas cidades… Hortas urbanas, então, deve ser crime de estado.

gil

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Torres – Capão da Canoa

São poucas as vezes em que nos distanciamos muito na estrada, normalmente chegamos a, no máximo, 20 metros de distância um do outro. Logo que pegamos a BR outra vez, antes de Torres, talvez por conta dos dias sem pedalar e a estrada horrorosa que percorremos até ali, me deu vontade de acelerar quando encontramos o asfalto de novo, abrindo um espaço considerável entre o gil e eu. Apesar dos buracos, estava animada. Quando olhei o gil pequeninho, longe, no espelho, pensei que podia aproveitar para cantar alto. Era um momento raro: são poucas as vezes em que se pode gritar com a segurança de que ninguém vai te escutar. Normalmente, sempre estamos rodeados de pessoas, mesmo que elas estejam separadas de nós por algumas paredes. Escolhi a melodia e dei mais umas pedaladas fortes para garantir. E, quando fui encher o pulmão de ar, o que entrou pela minha boca foi um cheiro asqueroso de morte. Parecia que eu estava degustando um corpo em putrefação. E esse gato morto na estrada foi o primeiro de muitos naquele dia.

A rodovia federal é um necrotério de diversidade animal. Em um dia apenas, vimos cachorros, pássaros, sapos, gambás, raposas e até partes de um ser humano sendo retiradas de escombros. Pedalar por ali podia ser comparado a passear num museu de taxidermia da fauna nativa, não fosse o cheiro desagradável que nos lembrava estarmos rodeados de cadáveres.

Estrada do Mar

Em Torres, nos informamos para pegar a Estrada do Mar – chega de BR, por enquanto. Antes de pegar a estrada de vez, seguimos pela beira-mar até o parque da Guarita, que nos foi sugerido pela Marlene, nossa anfitriã. O calor agradável nos fez parar algumas horas na areia, entre as pedras.

Não é à toa que Torres é dita a mais bela praia do Rio Grande do Sul. Suas formações rochosas singulares, que dão nome à praia, são únicas na planície que vai de Laguna até as primeiras praias uruguaias.

Prainha – Torres

Parque da Guarita – Torres

É proibido mas é fácil subir (Parque da Guarita, Torres)

Para sair do parque, seguimos um senhor que andava de bicicleta. Depois de atravessarmos uma trilha clandestina, caimos na areia da praia da Itapeva e seguimos alguns quilômetros mais. Ainda não tinha ninguém por lá além dos pássaros, que estariam sempre presentes a partir dali, principalmente na parte sul do Rio Grande do Sul.

Autonomia x Exploração

Em um trapiche caído aos pedaços, resolvemos fazer uma pausa para a segunda rodada do café da manhã: mixirica e maçã. Entre cascas e conversas, lamentávamos não termos visto, nem em Laguna nem em Torres, as tais baleias francas, que aparecem no início da primavera nessa região. Por conta do assunto, demorei a acreditar quando o gil disse que havia uma ali na nossa frente.

Terminado o lanche, entramos na primeira ruela que encontramos para sair da areia. Depois de brincar de pedalar na beira da praia, precisávamos dar uma limpada nas bicicletas, para que não sofressem tanto. Paramos em um quintal vazio e começamos a lavar as correntes.

Um pouco ao sul de Torres, finalmente avistamos baleias

Limpando as correntes com sabão

A maior parte das pessoas faz essa limpeza com querosene: é rápido e sai tudo sem muito esforço. O problema é que o querosene é poluente e faz mal para a pele. Resolvemos tentar com água, sabão e a nossa escova de dentes. O gil começou com essa ideia lá em Esplanada (ainda sem a escova), e ao longo da viagem fomos desenvolvendo a técnica. Demora um tempo, mas fica bom. Depois é só passar um oleozinho e está pronta para usar de novo.

Terminado o trabalho, seguimos em direção à Estrada do Mar. Não sei como ela é no verão, mas no inverno não tem quase ninguém, dá para ir tranquilo, mesmo com um acostamento estreito. Lá pelas duas ou três da tarde, um ventinho a favor, que ficaria mais forte com o passar do tempo, começou a soprar.

Tínhamos algumas opções para aquela noite, nenhuma delas certa. Primeiro, tentaria contatar minha família, pois sabia que alguém tinha uma casa em Capão Novo. Caso não funcionasse, seguiríamos até Capão da Canoa, para verificar se algum dos pedidos de couchsurf havia sido respondido. Em Capão da Canoa também tínhamos o contato de um ciclista, que conseguimos em Torres.

No final das contas, ficamos na casa do Alexandre, o ciclista. Foi muita sorte termos conseguido o contato dele. Antes de sair de Torres, nossa anfitriã nos apresentou ao Souza, um ciclista competidor que estava saindo de bicicleta em direção a Porto Alegre. Num primeiro momento, pensamos que talvez fizéssemos algum trecho juntos, mas quando ele disse que queria chegar em São Leopoldo (região metropolitana de Porto Alegre) naquele mesmo dia, vimos que não ia rolar. Em nossos planos, levaríamos mais uns três dias até lá. De qualquer forma, foi legal termos lhe encontrado. Depois de conversarmos, ele nos passou o telefone do seu companheiro de competição, em Capão da Canoa.

Fomos bem recebidos na casa do Alexandre, mesmo pegando-os de surpresa, algo que temos feito com frequência. Depois da janta, ele nos levou para dar uma volta pela cidade e pela praia. A essa altura, o vento já estava muito forte, e tinha uma leve garoa caindo. Mal sinal.

No outro dia pela manhã, acordamos cedo para sair o mais rápido possível, aproveitando o vento que ainda soprava com força. O plano era ir até Osório, já tínhamos lugar para ficar lá. Arrumamos as coisas e nos despedimos do Alexandre. “Estou indo de carro até Gravataí hoje, ainda nos encontramos pela estrada”, disse-nos antes de partirmos.

Lanchinho

M.

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Telegráfica de Montevideo

Pessoal,

Estamos em Montevideo desde miércoles passado e já conhecemos um bom bocado da cidade. As pessoas que conhecemos têm nos ajudado bastante, mas estamos num lugar muito distante de tudo. Isso dificulta a comunicação e consequentemente a atualização do blog.

Queremos pegar novamente a estrada na terça-feira em direção a Colônia e Fray Bentos, para finalmente entrar na Argentina.

Rambla de Montevideo

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Araranguá – Torres

Depois de vários dias de chuva, o aparecimento do sol sempre causa uma comoção. E naturalmente, instintivamente, vai-se abrindo um sorriso. Estando à mercê da natureza, isso acaba acontecendo com certa frequência e acabamos apelidando tal manifestação de “sorriso solar”.

Com as bicicletas limpas e as energias recarregadas, saímos com a ideia de seguir agora pela BR-101, já que as estradas balneárias até ali estavam em péssimo estado. Felizes com a acertada decisão, não imaginávamos que parte da estrada que nos levaria para a rodovia havia submergido! O córrego que seguia encanado por baixo, agora lavava a terra por cima. Quando passou uma caminhonete vimos que devia haver pelo menos meio metro de água, seria impossível, não digo não molhar os alforjes, mas atravessar aqueles cinquenta metros de correnteza transversal.

– Eh, isso aí não é nada não. Dá para passar tranquilo, hehe – disse um senhor que vinha numa bicicleta tipo barraforte.

– É que vai molhar nossas bolsas. Já teve dois carros que voltaram.

E ele foi.

Ficamos no bordo da estrada, pensando no que fazer. O melhor seria pegar carona com um caminhão. E foi isso que fizemos. Não demorou nem cinco minutos, apareceu um caminhão que carrega toras vazio. Pedi que parasse e expliquei.

– Claro, podem botar para cima.

Fui na carroceria olhando as bicicletas e torcendo para que M., que ia no banco do carona, insinuasse que não seria ruim se ele nos poupasse essa estrada horrível até a BR.  Enquanto isso, atravessando aquele trecho, vi o velhinho preso numa ilha, se segurando na cerca de um terreno. Seu orgulho ferido o impediu de pedir ajuda ao nosso caminhoneiro e nem sequer nos olhou. Paciência.

Se fosse um pedalinho…

Antiga olaria

Assim que a estrada ficou seca novamente, o caminhão parou e tivemos que seguir pedalando dali. Tudo bem, o lugar era bonito e estávamos loucos para nos mexer.

Chegamos em Araranguá no meio da tarde. Demos uma voltinha pelo centro e acabamos parando numa padaria.  Não tínhamos ninguém nos esperando, então iríamos pedir pouso nos Bombeiros. O pessoal nos recebeu muito bem, com janta, banho, local para acampar e até a opção de lavar roupa na máquina deles.

A noite estava bem fria, mas era a primeira em que o céu estava limpo: queríamos olhar as estrelas. Com as dicas de nosso amigo Pedro de Ibiraquera, ficamos deitados na grama (em cima do isolante térmico) até não aguentar mais o frio.

Essa não fui eu quem tirou (www.fineartphotoblog.com)

No dia seguinte, o vento sul castigava, enquanto continuávamos estranhando o ruído da estrada. Passando por Sombrio, vimos uma grande quantidade de ciclistas atravessando a rodovia, se mexendo pela cidade. Era intervalo do almoço.

– Ei amigo, onde tem um restaurantezinho bem barato pra gente comer?

Esse pessoal sempre conhece os becos da sua cidade e aquele rapaz nos levou num lugar em que comemos muito bem pagando apenas 5 pila cada. Depois de vários dias comendo os legumes estacionados há meses dos mercadinhos de Esplanada, aquele almoço foi um banquete (e foi mesmo!). A dona-cozinheira era colona ali do sul, tinha vendido sua terra para montar o restaurante na cidade. O forte das vendas era marmita para os trabalhadores, mas também tinha gente que comia no local.

Coqueiros penteados pelo vento

Seguimos pedalando, mas o vento sul e o almoço acabaram pesando. Descobrimos uma lanchonete em Santa Rosa do Sul, onde pedimos um cafezinho e conversamos por um bom tempo. Depois, mais uns quilômetros à frente, deitamos num gramado e lagarteamos.

Quando o sol ia se pondo, o vento começou a ficar muito frio. Entramos por Passo de Torres, cruzamos para o Rio Grande do Sul pela ponte pêncil e assim que chegamos na beira-mar de Torres, local marcado com nosso contato, já estávamos com cachecol no pescoço e no nariz, gorro, luvas, calça comprida, corta-vento, tudo.

É bem emocionante com vento

Vista do Rio Mampituba entrando no mar

gil

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Rota: atualizado!

Pessoal,

A página “Rota” foi atualizada com uma descrição sussinta sobre a condição das estradas que passamos. Sabemos que no final das contas os ciclistas, como nós também, querem saber se dá ou não para passar por tal lugar, então fomos breves.

Colocamos também um mapinha com os trajetos já percorridos para uma visualização rápida. Caso se queira navegar pelas rotas, saber por qual beco passamos, então é só clicar nele.

Um abraço de Punta del Diablo.

Aqui tivemos que saltar!

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Chapati

Através da conversa que tivemos com a Chica, cicloviajante que esteve pedalando sozinha na Patagônia chilena e argentina, conhecemos uma receita muito interessante para acampamento. Eu já conhecia uma receita de escoteiro chamada pão de caçador, onde ia apenas farinha, água e sal. Esta que estamos fazendo é mais completa, porém igualmente simples. Tiramos a base do que a Chica nos falou e acrescentamos mais umas coisinhas.

Eis a receita: duas medida de farinha de trigo integral, uma medida de aveia, uma colherinha de sal, quatro de açúcar, meia medida de coco ralado e meia medida de água.

Preparo: misturar tudo e espalhar pela frigideira (só testamos nessas com teflon). Esperar um pouco sem mexer até formar uma casquinha. Parece que vai grudar, mas não, chega um momento que mexendo a frigideira ela descola sozinha.

Dá para acrescentar ainda cevada, linhaça, uva passa, amendoim quebrado, semente de girassol, fermento, etc. Um melzinho por cima fecha que é uma beleza.

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Ibiraquera – Laguna – Esplanada

Uns meses atrás, publicamos um texto que falava sobre o tempo. Como pensava, a passagem do tempo tem sido bem diferente desde que saímos de Curitiba. Não ter hora para voltar é algo que nos dá uma liberdade que não estávamos acostumados, por mais que tivéssemos uma rotina bem flexível na cidade. Porém, ao contrário do que se possa imaginar, não fazemos nada de muito grandioso com esse tempo: pedalamos, comemos e dormimos. E só.

Enquanto pedalamos, há momentos em que conversamos por um longo período. Outras vezes, ficamos um tempão em silêncio, pensando em milhares de coisas ou só observando, com a mente vazia. Depois que paramos, o cansaço nos leva direto ao sono, assim que a fome é saciada. E no outro dia, é arrumar as bicicletas para pedalar de novo. Apesar de não termos nenhum compromisso e poucas preocupações, estamos o dia inteiro ocupados, e parece que a sensação de infinitude do tempo não nos assalta com muita frequência.

No trecho sul de Santa Catarina, porém, pudemos experimentar situações bem diferentes. Por causa das chuvas, tivemos que ficar alguns dias parados, por três vezes. Como pedalar já não nos ocupava por muitas horas, tínhamos os dias todos para serem vividos de alguma outra forma.

A primeira delas foi em Barra da Ibiraquera, um bairro de Imbituba. Logo que saímos de Garopaba, o tempo já estava fechando e, quando chegamos em nosso destino, a chuva que se estenderia por três dias, já começava a cair. Ficamos hospedados na casa dos pais de uma amiga de um amigo. Nunca havíamos visto nem a eles, nem a sua filha, mas o ambiente era muito acolhedor, e logo nos sentimos em casa.

Barra da Ibiraquera – SC

Barra da Ibiraquera – SC

Todos ali tinham interesses em comum: bicicleta, natureza, medicina alternativa, astronomia. Foram três dias de conversa boa, de leitura e de muito aprendizado. E foram três dias que passamos dentro de casa, em um lugar em que nos sentíamos confortáveis. Na quinta-feira, nos despedimos e seguimos para Laguna. Não haveria problema se tivéssemos que ficar mais um dia, mas, como queríamos continuar a pedalar, aproveitamos a trégua da chuva para sair.

Caminho para a Praia do Barranco

Vista do Porto de Imbituba

Em Laguna, paramos na casa de parentes do Gil. Ainda chovia quando chegamos, mas no outro dia o tempo melhorou, então aproveitamos para dar uma volta na região e visitar alguns lugares da cidade, coisa que não tem sido muito comum. De manhã fomos até os molhes, ver a pesca guiada por botos, e de tarde fomos ao centro histórico e ao Mirante da Glória. Quando retornávamos a casa, éramos recebidos sempre com refeições excelentes, mas que duraram somente dois dias, pois no terceiro, já estávamos de saída de novo.

Já é tarde para a Tainha

Molhes de Laguna

Tinham nos avisado que a estrada para o Farol de Santa Marta, em Laguna, era terrível. Mas estávamos contentes com nossa sorte: com aquele vento a favor, daria tempo tranquilo de visitar o Farol e chegar em Esplanada antes da chuva. Quando fizemos a curva para entrar no farol é que percebemos que o mesmo vento que aliviava nosso esforço, nos impedia de seguir em frente, pois espalhava a areia das dunas por cima do caminho.

Estrada em direção ao Farol de Santa Marta

Vento Brutal, que mudou nossos planos

Desistimos da visita e deixamos o farol para trás, seguindo para Esplanada. Todos os balneários do sul de Santa Catarina são interligados por ruas internas. Olhando no mapa, achamos que não haveria necessidade de voltar a BR. Mas, na realidade, os caminhos estavam tão ruins e cheios de lama, que a rodovia acaba sendo uma opção muito melhor. Apesar disso, como já estávamos com a mão na massa, continuamos pela estrada esburacada até nosso destino daquele dia.

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Jaguaruna

Em Esplanada não havia ninguém. Todas as casas estavam fechadas, e, com a garoa, também não tinha nenhuma pessoa na rua. Por ser domingo, o mercado estava aberto (nos outros dias da semana, descobriríamos, nem mesmo ele funcionava). Mais tarde fomos até a praia, e, olhando para a esquerda ou para a direita, tudo o que se via era areia e água, até a vista se perder. Era um visual bem diferente. Depois de um mês vendo praias com costão, praias entre dois rios, praias pequenas e praias grandes, agora estávamos em uma praia que não tinha fim. A primeira desde Pontal do Paraná. Foi muito bom ter conseguido aquela casa (através de um primo do Gil), já que teríamos que ficar parados por uns 4 dias mais ou menos, mas aquela imensidão desabitada já começava a dar uma angústia.

Casa em Esplanada

O primeiro dia pareceu proveitoso, deu para arrumar meus alforjes e dar uma lavada boa na bicicleta. Mas à medida que o dia ia passando, sensações diversas começavam a aparecer. Não ter hora para fazer nada nos deixava um pouco perdidos, e colocava nossos hábitos em cheque. Por que estávamos dividindo o dia em três partes, se não tínhamos qualquer compromisso com o mercado de trabalho? Por que realizávamos três grandes refeições, se sentíamos fome aos pouquinhos e podíamos preparar alimento a qualquer momento? Por que dormíamos e acordávamos sempre na mesma hora se, ao longo do dia, passávamos a maior parte do tempo imersos em atividades individuais, conversando pouco? Estávamos, como em todo o resto da viagem, livres de qualquer obrigação tradicional com o tempo. Mas, dessa vez, não estávamos ocupados pedalando o dia inteiro. Tampouco nos ocupávamos em conhecer cidades, que funcionam na lógica tradicional, ou em interagir com pessoas, que estão inseridas nela. Agora tínhamos que lidar com a infinitude do tempo, e de maneira solitária.

Entardecer em Esplanada

Nesses quatro dias, lemos muito, escrevemos, costuramos, consertamos as bicicletas. Quando o tédio batia, jogávamos baralho até enjoar. Nos intervalos entre os temporais, íamos até a praia, apreciar a areia infinita dos dois lados, sem saber, daquele ponto de vista, onde começava ou terminava um balneário. Nessas horas também conversávamos um pouco, mas quase sempre terminávamos falando sozinhos – a angústia, mesmo compartilhada, continua solitária. Chegando em casa de novo, com a chuva já nas costas, também não sabíamos direito quando começava ou terminava cada dia, ou qual a relevância de dividir o tempo dessa forma, já que toda a temporada que passamos ali em Esplanada pareceu um intervalo fechado e bem diferente dos outros até então.

M.

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