Arquivo do mês: junho 2011

E a comida?

Viajar de bicicleta impõe uma forte limitação: o peso.  Espaço para colocar bugiganga a gente sempre arranja. Uma vez encontrei dois ciclistas chilenos na Rodoferroviária de Curitiba e a bagagem deles ficava da altura do ciclista montado. Ou seja, se os alforges forem pequenos, os bagageiros sempre permitem empoleirar qualquer coisa.

Porém, se o peso dessa tralha for muito grande então a viagem não acontece.

Pensar no que se vai levar de alimento não é tão fácil quanto parece. Passaremos por lugares distintos entre si, com cultura e disponibilidade alimentícia diferentes. Só para ter uma ideia, estamos indo para Argentina e lá quase não tem frutas! Para quem só morou no Brasil, é difícil de imaginar. Quando estive na Patagônia em 2006 durante um mês, o que mais senti falta foi de ouvir música e comer frutas cítricas. Nada de laranja, abacaxi, maracujá, manga, abacate (argh), goiaba, pitanga, mamão, e o pior de tudo, BANANA. Eles têm maçã, cereja, ameixa, pêssego, ciruela, e carne (!).

Pelo que experimentamos das outras viagens, macarrão funciona como base quando se pensa em fazer a própria comida. Em cima, colocamos tomate, cebola, alho, pimentão, aveia, peixe enlatado. De sobremesa, frutas e chá.

A praticidade e durabilidade são características óbvias. Daí os enlatados, há muito usados nas mais longínquas expedições e guerras da modernidade. Outros alimentos interessantes para viagens são as castanhas, as frutas secas e as sementes. Elas costumam aguentar bastante e servem para qualquer refeição.

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Pelo que parece até aqui, estamos indo para Lua e teremos que nos virar com aquilo que escolhermos em Curitiba. Claro que não será assim. Em muitas partes do trajeto teremos companhia de alguma cidade ou vila. Porém, haverá momentos, como a travessia de Puerto Deseado até San Juan, na patagônia argentina, em que – talvez – só conseguiremos abastecer-nos com água por 350km. Na época em que avaliamos esse percurso, calculamos que seria necessário, para os dois, 40 quilos de comida (não lembro se a água estava incluída).

Dito isso, surge minha velha crítica ao vegetarianismo (aqui entram os mais extremos, flexíveis e etcéteras): é impossível excluir produtos de origem animal fora das cidades grandes. Se a pessoa da cidade pode escolher o que quer comer, pois ali concentra-se uma grande variedade de alimentos que são trocados por dinheiro, já o produtor do campo terá que recorrer aos animais em períodos de entressafra, estiagens, e outras necessidades não alimentares (ainda mais se ele quiser ser um pouco independente). Particularmente, eu acho que alimentar-se de vegetais é fundamental, mais limpo e mais natural (tendo em vista a porcariada que dão para os animais), ao contrário de comer carne velha congelada.

Mas como se faz então numa pedalada?

Em nossa última viagem, por exemplo, colhemos goiabas e ganhamos bananas. Mas tivemos que comer tudo em meia hora, pois o calor e as batidas aumentavam muito a degradação das frutas.

Castanhas são caras pra caramba e não é qualquer lugar que tem.

Como estaremos o tempo todo no litoral, é muito provável que os peixes sejam os alimentos mais frescos e desintoxicados que encontraremos. Como trocá-los por qualquer outro produto de origem vegetal produzido a quilômetros de distância, provavelmente tratado com agrotóxicos e guardado em câmaras refrigeradas para retardar o amadurecimento?

Já nos sugeriram salame e queijo, que é uma dupla clássica de viagens pré-geladeira. Também indicaram uma receita maluca de farinha, açúcar, amendoim, castanhas e não lembro mais o quê. Outra amiga já foi mais direta: nesse ponto vocês terão que deixar a causa de lado.

A questão da comida é bastante difícil, ainda mais para mim que sou magrinho.

Sugestões serão muito bem vindas.

gil

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Arquivado em Planejamento

Viajar de bicicleta: um questionamento político sobre o tempo

Nossa viagem tem, independente de outros objetivos, um caráter político. Para nós isso parece bastante claro –  quase não sentimos necessidade de explicitá-lo – e para uma considerável parte do pessoal com o qual convivemos, também. Por isso, fiquei um tanto desconfiada quando o Gil falou que, se não deixarmos bem claro para as pessoas, elas simplesmente não vão entender. Não vão entender? Como assim? A resposta veio logo em seguida, quando começamos a espalhar mais a notícia. Agora, atenta a essa questão, percebia como a maior parte das pessoas encara nossa viagem simplesmente como uma expedição aventureira, um desafio físico. Ela é isso, também; mas não só.

Existem várias coisas aí que colocam em questão o modo de vida que está em voga, e no centro delas está a bicicleta. Quando se escolhe a bicicleta como meio de transporte, o modelo carrista, consumidor de energia, poluente e causador de mortes, já está sendo questionado, por mais que uma significativa parcela desses ciclistas não tenha intenção ou consciência disso. Esse é o primeiro ponto e que não é exclusividade dos ciclistas viajantes, mas comum àqueles que usam a bici nas ruas da cidade. O que pretendo aqui, porém, não é discorrer sobre esse questionamento político, não por ele ser menos importante, mas porque já vem sendo discutido em outras instâncias, certamente por se tratar de um aspecto prático, que afeta (e revoluciona) o cotidiano das pessoas.

O que eu quero falar aqui é de tempo, da passagem do tempo. Pedalar é desacelerar: passar mais tempo atravessando uma distância do que se levaria utilizando meios de transporte tradicionais. O que isso significa em uma viagem de bicicleta? Em uma visão rasa diria-se que a viagem demora mais. Mas nesse comentário estão implícitas duas noções que a bicicleta coloca em questão: a noção de viagem e a noção de tempo – sendo a primeira resultado quase imediato da segunda.

Na sociedade que nos cerca, o tempo possui um valor de mercado.Tanto se cobra mais por mercadorias que demoram mais tempo para serem produzidas, quanto o pagamento pela força de trabalho é feito, na maior parte das vezes, através de uma operação matemática que se baseia no número de horas trabalhadas. De uma maneira semelhante, o ensino é dividido em horas/aula, o colégio separado em anos e nas universidades se fala em carga horária total. A soma de todas essas unidades de tempo de estudo nos dá um poderoso indicativo da classe social, salário e poder de consumo de um indivíduo. Não é a toa que a eficiência entra no jogo:  é preciso aproveitar o tempo ao máximo, cumprir com a máxima eficácia todas as etapas, pois no tempo está a chave para o dinheiro e o dinheiro nos dá acesso ao consumo, que é a expressão do sucesso. Nesse pensamento, portanto, o tempo deve ser economizado para que seja gasto em meios de acesso ao consumo. Economizá-lo significa reduzi-lo nas atividades que não contribuem para o resultado esperado, e é aí que entra o deslocamento.

Se entendemos que o deslocamento é perda de tempo, já que essas horas não serão acrescentadas ao nosso valor de mercado, viajar só tem sentido se existe um interesse, seja ele qual for, em estar em um outro lugar específico. Trocando em miúdos, viajar, nessa lógica, significa chegar em algum lugar, e uma viagem eficaz é aquela que demora menos tempo no deslocamento.

Viajar de bicicleta – especialmente quando a viagem é longa, como essa que faremos – questiona essa noção de tempo, porque estamos, já de saída, “jogando fora” uma quantidade de tempo absurda. E não me refiro aqui somente ao tempo que será levado com as pedaladas, mas principalmente o tempo potencial que deixaremos para traz – eu, por exemplo, deixarei a universidade e o trabalho para depois, assim que colocar a bici na estrada. Do mesmo modo, a noção de viagem é colocada em questão: sua importância deixa de residir no ponto de chegada e passa a abarcar o percurso em todas as suas partes e, também, como um conjunto.

O que ainda falta é dizer qual o significado, então, de tempo, se jogamos fora esse que estamos acostumados. Bem… Isso eu ainda não sei…

M.

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Nova seção: ‘Já fomos’

Inauguramos mais uma seção do blog, intitulada ‘Já fomos’. Lá na página tem as viagens de bicicleta que já fizemos (Ilha do Mel, Colônia Cecília e Guaraqueçaba) e a viagem pra Morretes que o Gil fez.

M.

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Foi criada a seção “Bicicleta”

Na seção, indicamos no que se deve prestar atenção quando escolhemos uma bicicleta para viajar. É um resumo de pesquisas na web, conversas com ciclistas e nossa própria experiência.

Em breve teremos uma seção para nossas viagens passadas e outra para mostrar como confeccionar certos equipamentos específicos, como alforjes, capas, etc.

gil

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Abertura do blog

Finalmente colocamos o blog no ar. Ainda não tem nada de mais, porém estamos nos mexendo para começar a escrever sobre os preparativos da viagem.

Fizemos um teste rápido com os alforjes hoje. Na minha opinião, vai caber tudo e ainda sobrar espaço. M. perguntou onde iria a comida. Pois é, eis o detalhe. Como ainda está sobrando espaço, não estou preocupado.

Ainda tem várias coisas para serem arrumadas: capas de chuva para os alforjes, costurar fitas refletoras, organizar a cozinha, instalar a garupa dianteira na minha bici, e por aí vai.

gil

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