Escutamos milhares de histórias aterrorizantes sobre o trecho até o Chuí, assim como aconteceu com a estrada do inferno. Do entroncamento com a BR-392 até Santa Vitória do Palmar, seriam quase 200 quilômetros sem nenhuma cidade e somente um posto de gasolina. Antes de finalmente entrarmos na rodovia que segue em direção ao Chuí, o Gil me convenceu de que, como logo sairíamos do Brasil, deveríamos nos despedir do arroz e feijão de uma maneira digna: se empanturrando.
Paramos em um vilarejo chamado Quinta, que faz parte da cidade de Rio Grande, e entramos em um restaurante. O bifê era bem variado e quase não tinha mesa para sentar de tanta gente. Pela estrutura do lugar, parecia um restaurante de estrada meio chique, daquele que as famílias de classe média param quando estão indo para a praia. Não foi preciso fazer quase nenhum esforço: quando disse que estávamos viajando de bicicleta (e que não éramos 20 pessoas), o dono do restaurante já me convidou para pegar um prato e comer à vontade. O fato de não comermos carne acaba ajudando muito nessas situações – quando não conseguimos comida de graça, ao menos ganhamos um bom desconto – mas, dessa vez, nem precisei desse argumento.
Bem alimentados, saímos do restaurante para seguir viagem. Encontramos duas pessoas subindo em uma moto no estacionamento, cujos acessórios declaravam que estavam em viagem. Puxamos assunto e perguntamos aonde iam. Seguiam em direção a Santa Vitória do Palmar, tinham família lá, e chegariam no fim do dia. Nos desejamos boa sorte mutuamente, e voltamos para a estrada.

Pausa para sobremesa
Das histórias que nos contaram, posso concordar que a estrada é realmente longa. Também não tem muita gente que mora por ali, mas existem sim casinhas esparsas ao longo do caminho. Sem água e mantimentos, é difícil de ficar. Agora, quanto à rodovia ser tediosa, disso tenho que discordar. É lógico que é uma reta só, daquelas que o olhar escapa lá na frente, mas esse foi um dos trechos em que a estrada era mais bonita. É uma região com muitos pássaros de grande porte (como o joão grande, o colhereiro, o cisne de pescoço negro, o gavião) e, como a vegetação é sempre um banhado ou pasto, se pode vê-los muito bem. No fim da tarde, milhares de passarinhos bem pequenos e azulados (os azulões) voavam de um arbusto ao outro, atravessando a estrada.
No final do primeiro dia, decidimos dobrar numa entrada para uma lagoa. Estávamos procurando a estação ecológica do Taim, onde provavelmente conseguiríamos pouso. Aquela entrada não dava lá, mas, em compensação, nos levava à lindíssima margem da Lagoa Mirim. Apesar de nossa vontade, não podíamos esperar muito tempo ali, só tínhamos uma opção de pernoite por enquanto e não dava pra brincar. Deixamos a lagoa quando o sol começava a se por, e seguimos pela estrada até o Taim.

Os azulões faziam sombra como as flechas persas contra Leônidas

Lagoa Mirim
A estação ecológica do Taim é a sede da guarda florestal que protege o Parque Nacional do Taim, um pouco mais a frente. Em Rio Grande, já tinham nos falado que existiam habitações próprias para estudantes, que passavam a noite ali durante alguma pesquisa, por isso sabíamos que, muito provavelmente, conseguiríamos um lugar para dormir. Porém, logo que paramos com as bicicletas no portão da frente, vimos uma dezena de soldados do exército brasileiro, e aí meu otimismo fugiu bem rapidinho. Foi engraçada essa reação. Nunca tinha presenciado ao vivo um grupo de soldados – com exceção de, quem sabe, o desfile de Sete de Setembro de Porto Alegre – mas, mesmo assim, eu guardava um medo irracional daquelas figuras. Aliás, irracional não, associações da imagem do exército com a repressão e a violência extrema me parecem ideias bem racionais, construídas a partir de notícias, documentários, livros e conversas.
Para a nossa sorte, porém, apesar daqueles soldados estarem ali, não eram eles que cuidavam da estação do Taim. Assim como nós, eles estavam apenas de pernoite naquele lugar. Os seguranças responsáveis, por sua vez, foram muito simpáticos: primeiro nos indicaram um lugar para armar a barraca, depois nos disseram para ficar no dormitório mesmo, já que o feminino estaria vago aquela noite. Mesmo com a gentileza e hospitalidade desses senhores, ainda não me sentia à vontade caminhando fora do dormitório, por mais que os soldados estivessem, agora, reunidos em volta de uma churrasqueira, cantando e contando piadas, parecendo jovens comuns, não fosse o uniforme camuflado.
No outro dia, levantamos bem cedo e às 7h já estávamos na estrada. Os primeiros 17km percorridos naquela manhã, cortavam o Parque do Taim, e foram de uma beleza quase indescritível. O banhado se estendia em uma faixa razoável, dos dois lados da pista. Era possível observar, além dos pássaros que já víamos a alguns quilômetros, ratos de banhado e capivaras. Eles eram em grande quantidade e, a toda hora, cruzavam a pista de um lado para o outro. Por conta disso, apesar de não passarem muitos carros por ali, tinha uma quantidade razoável de animais atropelados nas beiradas da estrada. Isso me fez pensar que levaríamos quase uma hora para atravessar aquele trecho – já que, para nosso azar, o dia estava sem vento – se estivéssemos de carro, porém, seriam no máximo 15 minutos. Se não fossem as capivaras para atrapalhar o trânsito, certamente muitas pessoas que passavam por ali nem iam se dar conta de onde estavam. Além disso, os sons ali eram muito variados, cantos de aves e barulhos de insetos, coisa que já não se escuta direito de bicicleta em dias de vento, quem dirá atrás dos vidros de um automóvel com ar condicionado.




Depois do Taim, a estrada continuava bonita, mas sem a mesma magia. Tudo que não era pasto para gado, era plantação de pinus, por isso a paisagem variava de grandes propriedades a propriedades enormes. O tempo ia passando e a próxima cidade continuava longe, a possibilidade de que, talvez, não conseguíssemos chegar naquele dia começava a aparecer. Por conta disso, eu comecei a pedalar mais rápido, a querer parar menos. Fazia um cálculo mental da velocidade, quilometragem e número de horas restantes, daria tudo certo se não fôssemos devagar e se não parássemos mais de 10 minutos. O Gil, por outro lado, por não ter tanto problema em acampar em qualquer lugar e por estar com um calo nas nádegas, queria parar bastante e fazer alguns trechos a pé, para não forçar o machucado. Aos poucos, os dois foram se angustiando por querer que o outro fizesse o que esperava e por sentir essa pressão de volta. Numa altura do campeonato, resolvemos botar as ânsias pra fora e enfim decidimos uma estratégia: eu iria a 20km/h sem parar e o Gil iria a 25km/h, e aí podia fazer algumas paradas no meio do caminho.

Depois de algumas boas horas, mortos de fome e sono, chegamos na cidade de Santa Vitória do Palmar. Era quase 10 da noite, e nosso contato já estava vindo nos buscar. Quando ainda estávamos sentados esperando, dois homens se aproximaram, um deles me cumprimentou e depois ao Gil. Virou para o outro e murmurou “Viu só, eu disse que eles não iam me reconhecer”. Ficamos nos olhando sem entender direito o que estava acontecendo. Em seguida o homem explicou que ele era o motoqueiro que encontramos na Quinta, depois do almoço. Conversamos um pouco com ele e com seu pai, que o acompanhava, e finalmente seguimos para um abrigo, com as pernas um pouco bambas.